Nova perereca Ololygon paracatu é descoberta no Cerrado mineiro
Espécie endêmica de Paracatu (MG), identificada por equipe da UnB e ICMBio, vive em matas ciliares ameaçadas por assoreamento; estudo publicado na Zootaxa alerta para crise hídrica na bacia do São Francisco

Luciano Meira
Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Museo Argentino de Ciencias Naturales descobriram uma nova espécie de perereca, Ololygon paracatu, exclusiva do Cerrado no noroeste de Minas Gerais, registrada apenas em duas localidades próximas ao município de Paracatu. O estudo, publicado na revista Zootaxa, usou análises genéticas, morfológicas e acústicas, com apoio de coleções biológicas, para diferenciar o anfíbio de espécies próximas como O. goya e O. skaios, confirmando-o como parte do grupo O. catharinae.
De pequeno porte, os machos medem de 20,4 a 28,2 mm e as fêmeas, de 29,3 a 35,2 mm, com diferenças em vocalizações e morfologia que a separam de congêneres; habita matas de galeria ao longo de córregos de águas rápidas e leito rochoso, ambiente típico do Cerrado ameaçado pela expansão agropecuária. Trata-se da oitava espécie do gênero Ololygon descrita no bioma, reforçando sua rica herpetofauna endêmica – o Cerrado abriga cerca de 250 espécies de anfíbios, com taxa de endemismo acima de 50%, mas enfrenta perda de 50% de sua cobertura vegetal original.
O epíteto “paracatu” homenageia o Rio Paracatu, principal afluente do São Francisco, e serve de alerta ambiental: durante o trabalho de campo, a equipe observou assoreamento e degradação nos riachos, agravados pela crise hídrica na bacia, que abastece milhões e sofre com desmatamento e mineração ilegal na região. “A conservação desses córregos é essencial não só para a perereca, mas para o Rio Paracatu e a sociedade”, alerta Daniele Carvalho, do RAN-ICMBio e primeira autora, enfatizando que nomear espécies as torna visíveis para proteção.
“A pesquisa reflete anos de dedicação aos anfíbios do Cerrado, bioma rico mas subestimado e ameaçado”, complementa Reuber Brandão, professor da UnB e membro da Rede de Ecologia e Conservação do Nordeste (RECN), iniciativa da Fundação Grupo Boticário. A descoberta chega em momento crítico, com o ICMBio listando 41 anfíbios do Cerrado como ameaçados de extinção em avaliação recente, e reforça a urgência de políticas para matas ciliares em áreas de conservação como a Estação Ecológica Terra Ronca.
