Isolado e com baixa intenção de voto, Simões assume Minas em tom de confronto
Novo governador herda passivo de desonerações fiscais e aposta em ataques institucionais para viabilizar candidatura

Luciano Meira
O vice-governador Mateus Simões (PSD) assumiu o comando de Minas Gerais neste domingo (22), após a renúncia de Romeu Zema (Novo), que iniciou pré-campanha à Presidência. A transmissão do cargo ocorreu em cerimônia na Assembleia Legislativa (ALMG), marcada pela ausência de lideranças nacionais e de expoentes do primeiro escalão da política mineira. Simões assume o Palácio Tiradentes com a intenção declarada de disputar a sucessão em 2026, embora as pesquisas de opinião indiquem desempenho marginal.
Os levantamentos mais recentes de institutos como Quaest e Real Time Big Data situam Simões com índices que variam entre 4% e 9% das intenções de voto. O novo governador aparece distante dos líderes na corrida eleitoral, como o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT). Mesmo com o controle da máquina pública pelos próximos nove meses, Simões enfrenta resistência dentro da própria base aliada, que demonstra sinais de fragmentação diante de sua baixa viabilidade eleitoral.
A postura do novo chefe do Executivo tem sido pautada pelo confronto direto com instituições e adversários. Recentemente, Simões utilizou canais oficiais e entrevistas para dirigir críticas ao Poder Judiciário e ao governo federal. Em declarações públicas, ele afirmou que manteria o programa de escolas cívico-militares em Minas Gerais independentemente de decisões judiciais contrárias. “Não vou me acovardar diante de decisão judicial”, declarou o político em entrevista recente, adotando um tom beligerante que destoa da tradição de conciliação do estado.
No campo legislativo, a relação de Simões com a Assembleia é conturbada por episódios de ataques a parlamentares, inclusive da base de apoio. O governador é acusado por deputados de utilizar “bravatas” nos microfones para mascarar a falta de articulação política. Críticos apontam que essa estratégia busca compensar o desconhecimento do eleitorado, mas o efeito tem sido o esvaziamento de seus eventos oficiais. A posse de domingo foi descrita por interlocutores como um ato protocolar, prestigiado majoritariamente por secretários e aliados obrigados pelo cargo.
Um dos pontos mais sensíveis da gestão herdada por Simões é o sigilo sobre as desonerações fiscais concedidas a empresas. Embora tenha prometido transparência absoluta durante o período em que foi secretário-geral e vice, o governo estadual mantém sob segredo a lista de beneficiários de renúncias que somam bilhões de reais. Sindicatos e órgãos de controle criticam a “caixa-preta” tributária, que contrasta com o discurso de austeridade e moralidade administrativa propagado pelo grupo político de Zema e Simões.
O impacto econômico dessa falta de transparência reflete-se na dificuldade de Minas Gerais em renegociar sua dívida com a União. Simões tem culpado o governo federal pelo impasse no Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mas evita detalhar as contrapartidas oferecidas pelo estado. A retórica de “confronto contra Brasília” serve como peça de marketing eleitoral, porém especialistas alertam que o isolamento político pode prejudicar o envio de recursos federais para áreas essenciais, como saúde e infraestrutura.
Politicamente, a passagem de Simões pelo governo tem prazo de validade definido pelo calendário eleitoral de outubro. Sem um plano de governo que dialogue com as prioridades apontadas pela população —como saúde e geração de emprego—, o governador aposta na polarização ideológica para subir nas pesquisas. Entretanto, o racha na direita mineira e a ascensão de nomes com maior apelo popular sugerem que a arrogância no trato com aliados pode ser o principal obstáculo para sua sobrevivência política após 2026.
A análise do cenário indica que Simões comanda um governo de transição enfraquecido pela falta de votos e pelo distanciamento da realidade das urnas. Socialmente, a manutenção de sigilos fiscais em um estado em crise financeira gera desconfiança sobre a real face da gestão. Politicamente, ao atacar o Judiciário e o Legislativo, o governador sacrifica a governabilidade em nome de uma candidatura que, até o momento, carece de base social e apoio partidário sólido.
