Escondendo homicídios e benefícios fiscais, enquanto acumulam suspeitas de má administração, Zema e Simões seguem viajando em pré-campanha

O estado registrou aumento de 25,2% na violência letal real, denúncias de desvio de dinheiro e outras mazelas se acumulam enquanto agendas de pré-campanha são priorizadas

Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) – Arquivo RMC

Luciano Meira

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o atual chefe do Executivo mineiro, Mateus Simões (PSD), intensificaram agendas de viagens e campanhas eleitorais fora de suas bases habituais de atuação. As movimentações políticas de ambos os aliados ocorrem em um período no qual a administração pública estadual enfrenta uma sucessão de crises nos setores de segurança, educação, transparência orçamentária e suspeitas de favorecimento empresarial sob análise de órgãos de controle.

Simões, que assumiu o Palácio da Liberdade após a renúncia definitiva de Zema para a disputa eleitoral, instituiu uma modalidade de pré-campanha baseada na transferência temporária da sede do governo para diferentes regiões de Minas Gerais. Nas visitas ao interior, o governador usa uma suposta instalação de novas unidades do Colégio Tiradentes como sua bandeira de campanha. A instituição de ensino, contudo, possui estrutura orgânica e orçamentária própria vinculada à Polícia Militar. Por outro lado, o projeto real da gestão baseia-se no modelo de escolas cívico-militares, cujas diretrizes já foram consideradas inconstitucionais por decisões em diversas instâncias do Poder Judiciário.

A segurança pública e outras propostas legislativas acumulam contestações institucionais. Em pronunciamento no dia 21 de abril, Simões declarou que uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre a recomposição salarial dos servidores da Segurança Pública tramitava na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Deputados estaduais da oposição e técnicos do Legislativo desmentiram a afirmação, apontando que o projeto existente na Casa é considerado inconstitucional, portanto inservível para tal finalidade.

Paralelamente às agendas locais de Simões, Zema realiza viagens pelo território nacional para consolidar seu nome na disputa pela Presidência da República pelo Partido Novo. O ex-governador apresenta patamares baixos de intenção de voto nas pesquisas eleitorais, figurando com dígitos únicos ou traço fora do território mineiro. Em seus discursos pelo país, Zema afirma ter realizado uma gestão isenta de desvios éticos e escândalos e busca criar factoides na falta de uma proposta de governo concreta para apresentar ao eleitorado criando cortes para suas redes sociais. A narrativa, contudo, colide com investigações em curso e com a política de sigilo adotada pelo Estado sobre incentivos fiscais.

Ocultação de homicídios e arrocho salarial

Os dados oficiais consolidados pelo Atlas da Violência mostram que Minas Gerais registrou o maior aumento de homicídios estimados do Brasil. Oficialmente, as secretarias estaduais computaram 2.731 homicídios, indicando uma redução de 2,3% na criminalidade letal. No entanto, o relatório elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou subnotificação estatística. O estado registrou 3.112 Mortes Violentas sem Causa Determinada (MVCI), o que representa uma explosão de 43,6% nessa categoria. Os pesquisadores estimaram que 1.218 dessas mortes ocultadas foram assassinatos, resultando em uma alta real de 25,2% na violência letal mineira.

A insatisfação com a gestão de pessoal converteu-se em protestos e paralisações do funcionalismo público. Categorias da educação e das polícias realizam manifestações regulares contra o arrocho salarial e o descumprimento do piso nacional do magistério. O governo estadual justifica a ausência de reajustes com a necessidade de adequação fiscal às regras do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) e agora do Propag. Os sindicatos, por sua vez, confrontam o argumento do Executivo com o volume de isenções fiscais concedidas a grandes corporações corporativas.

Isenções sob sigilo e suspeitas no TCE-MG

A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de Minas Gerais prevê que o montante total de renúncias fiscais alcance R$ 25 bilhões. Entre 2019 e 2026 é estimado um volume de isenções de até R$ 120 bilhões concedidos por Zema. O governo Zema/Simões recuou da promessa inicial de abertura de dados e decretou sigilo sobre a identidade das empresas beneficiadas pelos incentivos econômicos. A justificativa oficial apresentada pelo Palácio da Liberdade é de que a publicidade das informações traria riscos à competitividade e à estabilidade das companhias instaladas no estado.

As decisões financeiras da gestão tornaram-se objeto de uma denúncia formal protocolada junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG). A representação exige auditoria em contratos indiretos e atos administrativos envolvendo o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, sua família e empresas em que tenham qualquer participação. O foco principal da fiscalização recai sobre os critérios de aceleração de licenciamentos ambientais milionários concedidos a mineradoras controladas pela família Vorcaro na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O caso ganhou repercussão após a confirmação de que Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro, doou R$ 1 milhão para o partido de Zema. Além disso, o atual presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) atuou previamente como prestador de serviços para o grupo empresarial beneficiado.

As conexões financeiras expandiram-se para o âmbito federal, resultando em requerimentos de convocação e na aprovação da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Daniel Vorcaro na CPMI do INSS. Parlamentares federais apontaram a participação acionária de familiares de Romeu Zema, incluindo seu pai e irmãos, em empresas associadas à estrutura investigada por movimentações financeiras suspeitas de fundos de pensão. Zema classificou a repercussão política como “lamentável” e tentou atribuir os fatos à desmobilização de operações de combate à corrupção no país.

Crise na Educação e desdobramentos políticos

A área educacional da gestão estadual também registrou turbulências administrativas que resultaram na exoneração do secretário da Educação, Rossieli Soares. O TCE-MG investiga indícios de superfaturamento e irregularidades em contratos que somam entre R$ 346 milhões e R$ 349 milhões na compra de materiais didáticos do programa “Aprender Mais”. Embora a saída de Soares tenha sido tratada oficialmente como uma divergência técnica após a divulgação antecipada de índices escolares, os bastidores do governo ligam a demissão diretamente ao desgaste gerado pela apuração dos contratos escolares.

Os escândalos administrativos produzem reflexos diretos no cenário sucessório e na articulação da direita em Minas Gerais. Como vice-governador e coparticipante de todas as decisões da gestão anterior, Mateus Simões herdou o passivo político das crises integradas. O desempenho inexpressivo de Zema nas pesquisas presidenciais e a pressão de partidos tradicionais para que o ex-governador aceite uma posição de vice na chapa unificada da direita reduzem o poder de Simões de capitanear o eleitorado conservador mineiro, abrindo espaço para candidaturas de oposição.

Impacto Social, Político e Econômico

O cenário atual de Minas Gerais consolida uma deterioração tripla na dinâmica do estado. Do ponto de vista social, a subnotificação de homicídios e o sucateamento salarial da segurança e da educação corroem os direitos fundamentais da população, gerando um ambiente de desconfiança institucional e vulnerabilidade urbana. Economicamente, a concessão de R$ 25 bilhões em isenções fiscais sob a barreira do sigilo, contraposta ao discurso de austeridade, evidencia uma escolha política de priorizar o favorecimento corporativo em detrimento dos serviços básicos. Politicamente, as pretensões eleitorais isolam o grupo governante: a estagnação de Zema no plano nacional e o desgaste ético de Simões no âmbito local enfraquecem o projeto político do grupo e fragmentam a base governista diante do avanço de novas lideranças.

O Metropolitano

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