Flávio usa decisão dos EUA sobre PCC e CV como trunfo eleitoral, mas especialistas questionam eficácia da medida

Classificação das facções como organizações terroristas impulsiona discurso do pré-candidato em segurança pública, mas analistas apontam limites jurídicos e práticos da estratégia e veem ofensiva política em meio a desgaste envolvendo Daniel Vorcaro

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Luciano Meira

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras abriu uma nova frente de disputa política no Brasil e deu ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) um tema central para sua campanha de 2026.

O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado norte-americano e entrará em vigor em 5 de junho. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que as duas facções figuram entre as organizações criminosas mais violentas da América Latina e justificou a medida pelo alcance internacional de suas redes ilícitas, ligadas ao tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. A decisão ocorreu dias depois de reuniões de Flávio Bolsonaro em Washington com o presidente Donald Trump e integrantes do governo americano.

Flávio comemorou a medida e afirmou ter atuado diretamente para convencer o governo dos EUA da necessidade da classificação. Em entrevistas e manifestações públicas, o senador sustentou que o enquadramento permitirá ampliar sanções financeiras e dificultar a movimentação internacional de recursos das facções. O pré-candidato também aproveitou o episódio para criticar o governo, sem apresentar provas, acusando o Planalto de resistência ideológica ao endurecimento contra o crime organizado.

Aliados bolsonaristas passaram a apresentar a decisão americana como demonstração de liderança internacional do campo conservador e como evidência de que governos estrangeiros estariam dispostos a adotar medidas que, segundo eles, Brasília rejeita por razões políticas.

O governo Lula, porém, adotou posição distinta. Assessores do Palácio do Planalto e da área diplomática argumentam que o Brasil reconhece PCC e CV como organizações criminosas transnacionais e mantém cooperação internacional para enfrentá-las, mas rejeita o enquadramento como terrorismo.

A avaliação de integrantes do governo é que a classificação pode abrir precedentes jurídicos e políticos sensíveis, sobretudo se vier acompanhada de sanções unilaterais ou de interpretações que sirvam de justificativa para pressões externas sobre a política de segurança brasileira. O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, defendeu cooperação em áreas como rastreamento financeiro, combate ao tráfico de armas e lavagem de dinheiro, mas descartou qualquer formulação que possa ser usada como pretexto para intervenção estrangeira. O que parece ser admitido pela “vira latice” explícita da direita brasileira.

A divergência expõe um debate que vai além da disputa eleitoral. Para especialistas em segurança pública e crime organizado, o reconhecimento de facções como organizações terroristas tem forte peso simbólico e financeiro, mas não representa solução estrutural para o problema.

Pesquisadores lembram que terrorismo e crime organizado possuem motivações distintas. Enquanto grupos terroristas tradicionalmente buscam objetivos ideológicos ou políticos, facções como PCC e CV operam essencialmente orientadas pelo lucro, pelo controle territorial e pela gestão de mercados ilícitos.

Na prática, a classificação americana pode facilitar congelamento de ativos, ampliar restrições bancárias e pressionar empresas e operadores financeiros ligados às redes internacionais do crime. Ainda assim, analistas sustentam que esse instrumento, isoladamente, tem alcance limitado.

O crescimento das facções brasileiras está inserido numa dinâmica transnacional muito mais ampla, relacionada ao mercado global de drogas e armas.

Embora os Estados Unidos consumam proporcionalmente menos cocaína refinada do que durante as décadas de 1980 e 1990, a demanda por entorpecentes continua funcionando como um dos motores do crime organizado continental. O mercado norte-americano impulsionou historicamente cartéis latino-americanos e hoje permanece relevante principalmente por meio da circulação financeira e do fluxo internacional de armamentos.

No caso brasileiro, o impacto é indireto, mas estratégico

As facções nacionais não dependem prioritariamente do consumidor norte-americano. O principal destino da cocaína escoada pelos portos brasileiros é a Europa, onde o valor da droga chega a superar o do mercado dos EUA. Ainda assim, mudanças no consumo americano e na repressão às rotas tradicionais afetam diretamente o Brasil.

Especialistas descrevem esse mecanismo como “efeito balão”: quando a repressão aumenta em determinadas rotas ou regiões, o tráfico se desloca e reorganiza sua logística. Parte da cocaína produzida nos países andinos passa então por território brasileiro antes de seguir para Europa e África, fortalecendo financeiramente organizações locais.

Esse processo também alimenta disputas violentas por corredores estratégicos e portos como Santos, Paranaguá e Salvador.

Outro vetor é o fluxo inverso das armas

Investigações policiais e estudos sobre segurança pública apontam que parte relevante do armamento pesado utilizado por facções brasileiras tem origem no mercado civil norte-americano, chegando ao país por rotas clandestinas que atravessam Paraguai e Bolívia. Fuzis, pistolas e acessórios de alto poder de fogo reforçam a capacidade militar das organizações e ampliam o desafio enfrentado pelas forças de segurança.

Por isso, pesquisadores argumentam que o combate ao crime organizado exige políticas permanentes de inteligência financeira, cooperação internacional, controle de armas, repressão à lavagem de dinheiro e fortalecimento institucional — medidas consideradas mais efetivas do que mudanças meramente classificatórias.

Nesse cenário, a decisão dos EUA também ganhou leitura política

Flávio Bolsonaro transformou o episódio em um dos principais ativos discursivos de sua pré-campanha presidencial, marcada até aqui pela defesa de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e pela mobilização do eleitorado conservador em torno da narrativa de perseguição judicial.

Observadores do processo eleitoral observam que a agenda de segurança surge num momento politicamente delicado para o senador, após a repercussão do caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso e investigado por suspeitas de fraude e corrupção.

Reportagens revelaram contatos entre Flávio e Vorcaro relacionados ao financiamento privado do filme Dark Horse, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador inicialmente negara relações com o banqueiro, mas depois confirmou encontros e sustentou que se tratava de negociação privada sem irregularidade ou contrapartida política.

A divulgação do caso produziu desgaste político e coincidiu com pesquisas que registraram perda de competitividade eleitoral do pré-candidato.

Analistas ouvidos por veículos nacionais e internacionais observam que a ofensiva em torno do tema do terrorismo pode produzir efeito político ao recolocar o debate sobre segurança pública no centro da campanha e reduzir espaço dedicado a controvérsias recentes envolvendo o senador.

A estratégia, porém, encontra limites

Mesmo entre especialistas favoráveis ao endurecimento contra o crime organizado, predomina a avaliação de que a classificação de PCC e CV como organizações terroristas não elimina as bases econômicas que sustentam as facções.

Enquanto persistirem mercados consumidores multibilionários, rotas internacionais lucrativas e estruturas financeiras capazes de reciclar dinheiro ilícito, organizações criminosas tendem a se reorganizar e ocupar rapidamente espaços deixados por grupos enfraquecidos.

Nesse sentido, afirmam pesquisadores, o desafio brasileiro continua sendo menos semântico e mais estrutural: desmontar a engrenagem econômica e institucional que permite ao crime organizado sobreviver e se expandir para além das fronteiras nacionais.

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