STJ notifica Zema, amplia embate com Gilmar Mendes e projeta disputa para além dos tribunais
Acusado de calúnia por vídeos sobre o caso Banco Master, ex-governador transforma confronto com ministro do STF em bandeira política e reforça estratégia de alcance nacional

Luciano Meira
A notificação recebida pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que terá 15 dias para responder à denúncia por calúnia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), levou ao plano judicial um confronto que já vinha sendo travado no campo político e simbólico. O caso envolve vídeos satíricos publicados por Zema contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), mas extrapola a discussão jurídica e ajuda a explicar como o ex-governador passou a utilizar o embate com a Corte como instrumento de projeção nacional.
A denúncia da PGR, encaminhada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), sustenta que Zema ultrapassou os limites da crítica política ao divulgar peças intituladas “Os Intocáveis”, nas quais os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli aparecem como fantoches em diálogos que sugerem favorecimento indevido e troca de vantagens no contexto do escândalo do Banco Master. Para o procurador-geral Paulo Gonet, o conteúdo não se limitou ao humor político e imputou falsamente prática criminosa ao ministro Gilmar Mendes, caracterizando calúnia.
A ordem de notificação foi expedida no âmbito do STJ e formaliza a abertura da fase de defesa prévia. Caso a denúncia seja aceita, Zema passará à condição de réu. A PGR também pede indenização por danos morais, argumentando que a publicação atingiu a honra e a reputação funcional do ministro do STF.
O episódio é o ponto mais recente de uma escalada que começou meses antes, quando Zema intensificou críticas públicas ao Supremo e passou a associar ministros da Corte ao debate sobre transparência e influência política em torno do Banco Master.
O caso Master se transformou num dos temas de maior repercussão política de 2026 após investigações e revelações envolvendo operações financeiras, relações empresariais e questionamentos sobre proximidade entre personagens do setor privado e integrantes do sistema político e judicial. Embora não exista acusação formal contra Gilmar Mendes no caso, a repercussão pública do escândalo abriu espaço para disputas narrativas e acusações cruzadas.
Foi nesse ambiente que Zema decidiu avançar
Os vídeos publicados pelo ex-governador utilizam linguagem caricatural e inteligência artificial para ironizar ministros do STF. Em uma das peças, Gilmar Mendes e Dias Toffoli aparecem discutindo decisões judiciais e vantagens pessoais ligadas ao escândalo financeiro. O conteúdo levou Gilmar a pedir ao ministro Alexandre de Moraes a inclusão de Zema no inquérito das fake news. A PGR, porém, entendeu que o caso deveria seguir como crime contra a honra e optou pela denúncia autônoma no STJ.
A reação de Zema foi imediata e manteve o tom de confronto. Ao divulgar a notificação judicial, o ex-governador afirmou que não pretende recuar e voltou a chamar ministros do STF de “intocáveis”.
“Os intocáveis não aceitam críticas”, declarou nas redes sociais, repetindo expressão que se tornou marca de sua ofensiva política contra a Corte.
O embate, entretanto, não surgiu apenas dos vídeos
A relação entre Zema e Gilmar já vinha se deteriorando desde entrevistas e declarações públicas trocadas ao longo do primeiro semestre. Gilmar criticou o então governador mineiro e ironizou sua dependência de decisões do Supremo durante a renegociação da dívida de Minas Gerais com a União, afirmando que Zema teria “governado Minas com liminares do STF”. A referência atingia um dos pilares da narrativa política construída pelo mineiro: a imagem de gestor austero e independente de Brasília.
Para observadores da cena política, o endurecimento do discurso contra o STF não pode ser separado do reposicionamento nacional de Zema.
Impedido constitucionalmente de buscar novo mandato ao governo mineiro e cada vez mais citado como nome do campo liberal-conservador para a eleição presidencial de 2026, o ex-governador passou a ocupar espaço semelhante ao explorado por setores da direita que transformaram críticas ao Judiciário em plataforma de mobilização política.
Nos últimos meses, Zema ampliou presença em redes sociais, intensificou viagens fora de Minas e elevou o tom de críticas ao governo federal e ao Supremo. O confronto com Gilmar, nesse contexto, deixou de ser apenas resposta institucional a uma ação judicial e passou a funcionar como elemento de identidade política.
Aliados do ex-governador argumentam que ele vocaliza um sentimento de desconfiança de parte do eleitorado em relação ao STF e defendem que as peças satíricas estão protegidas pela liberdade de expressão. Já críticos enxergam cálculo político deliberado: provocar reação da Corte, consolidar imagem de outsider e converter eventual judicialização em ativo eleitoral.
A disputa agora seguirá em duas frentes paralelas
No STJ, a discussão será jurídica: se os vídeos configuraram sátira protegida pela liberdade de expressão ou imputação criminosa deliberadamente falsa. Na arena política, porém, a batalha parece já ter assumido outro significado.
Ao transformar ministros do Supremo em antagonistas centrais de seu discurso, Zema reforça um movimento de nacionalização de sua figura pública — e faz do conflito institucional não apenas uma defesa pessoal, mas parte da construção de seu próprio projeto político.
