Cleitinho lidera, mas sua eleição está longe de resolvida
O senador entra na disputa como favorito nas pesquisas, porém a definição partidária, a montagem da chapa e a relação com a direita mineira serão decisivas para transformar popularidade em vitória

Luciano Meira
O dado mais importante do cenário mineiro hoje é que Cleitinho (Republicanos), aparece como líder consolidado em praticamente todas as pesquisas divulgadas ao longo de 2025 e 2026. Levantamentos da Quaest e da Real Time Big Data, entre outros, mostram o senador do Republicanos na dianteira tanto no primeiro quanto no segundo turno, frequentemente com vantagem superior a 20 pontos sobre os principais adversários. Em alguns cenários, superando nomes como Rodrigo Pacheco (PSB), Alexandre Kalil (PDT) e Mateus Simões (PSD) com relativa folga.
A explicação para essa vantagem vai além da estrutura partidária. Cleitinho construiu uma marca política própria, baseada em linguagem simples, forte presença digital e discurso antipolítica tradicional. Na entrevista a O senador afirma que a classe política o subestima e que não teme assumir o governo estadual. Essa narrativa de “outsider” continua funcionando em Minas, especialmente porque o senador não é percebido pelo eleitor médio como integrante do sistema, apesar de já ocupar mandato no Senado. Sua trajetória de ascensão rápida — vereador, deputado estadual e senador em poucos anos — reforça essa imagem.
Apesar de muito vantajosas, as pesquisas escondem um problema central: Cleitinho ainda não converteu liderança eleitoral em arranjo político estável. As negociações entre Republicanos e PL atravessam turbulências relacionadas à composição da chapa e à distribuição de espaços de poder. O PL considera o senador peça fundamental para unificar a direita mineira, mas há divergências sobre vice-governador, Senado, controle político da futura coalizão e especialmente os planos para 2030 do deputado federal Nikolas Ferreira — a quem supostamente Bolsonaro teria delegado o poder de decisão dos destinos da legenda em MG — que prefere apoiar Mateus Simões que não poderia disputar uma reeleição a enfrentar Cleitinho supostamente comandando a máquina estatal.
O principal desafio de Cleitinho não parece ser eleitoral, mas organizacional. Diferentemente de Romeu Zema em 2018, ele já começa conhecido pela maioria dos eleitores. O problema é outro: transformar capital pessoal em coalizão. As reportagens recentes sugerem que existe desconfiança mútua entre o senador e setores do Republicanos e do PL. Quando um candidato lidera pesquisas, normalmente atrai aliados. No caso de Cleitinho, ocorre um fenômeno curioso: sua força eleitoral também gera receio entre partidos tradicionais, que temem perder protagonismo numa eventual administração comandada por alguém de perfil mais personalista.
Há ainda uma questão estratégica relacionada ao campo da direita. O governador Romeu Zema não pode disputar a reeleição e o vice, Mateus Simões, busca herdar seu eleitorado. Em condições normais, um candidato apoiado pela máquina estadual seria competitivo. O problema para Simões é que Cleitinho ocupa hoje boa parte do eleitorado conservador e antipetista, reduzindo o espaço disponível para uma candidatura de continuidade. Por isso cresce a pressão para algum tipo de entendimento entre os grupos, ainda que essa convergência esteja longe de ser simples.
Outra questão relevante é que a liderança de Cleitinho parece mais sólida do que conjuntural. Desde pelo menos o início de 2025 ele aparece na frente das pesquisas, o que indica um fenômeno persistente e não apenas um pico momentâneo de popularidade. Ainda assim, pesquisas realizadas a mais de um ano da eleição medem sobretudo notoriedade e sentimento político do momento. A história eleitoral brasileira está repleta de líderes precoces que perderam força quando começou a campanha oficial.
O quadro atual permite uma conclusão equilibrada: Cleitinho é hoje o favorito objetivo para o governo de Minas, e qualquer análise que ignore esse fato estaria desconectada dos números. Porém, sua candidatura atravessa uma fase de transição. A pergunta deixou de ser se ele tem votos para disputar o Palácio Tiradentes. As pesquisas indicam que tem. A questão passou a ser se conseguirá construir uma aliança suficientemente ampla para sustentar essa vantagem até outubro de 2026. Em Minas, onde coalizões costumam ser tão importantes quanto carisma eleitoral, essa talvez seja a etapa mais difícil da corrida.
