Deputada bolsonarista mantém nutricionista ligada a clínica privada em seu gabinete

Júlia Zanatta, uma das vozes mais estridentes nas pautas de costume e conhecida por polêmicas na Câmara, emprega nutricionista que segue atendendo consultas particulares durante expediente parlamentar

Deputada federal Julia Zanatta (PL-SC) – Foto: Arquivo RMC
Luciano Meira

Em mais um episódio que desafia os limites da ética e do interesse público, a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), famosa pela militância ferrenha nas pautas de costume e por embates ruidosos na Câmara dos Deputados, foi flagrada dando espaço em seu gabinete à nutricionista Ana Julia Rodrigues Monteiro, que mantém atuação em clínicas privadas no interior de Santa Catarina, inclusive em horários que deveriam ser dedicados ao serviço público. Para quem acompanha o noticiário político, a última controvérsia reforça o perfil da parlamentar, marcada por episódios controversos e incoerências gritantes entre o discurso moralista e a prática com recursos públicos.A contratação de Ana Julia foi realizada em abril de 2024. O cargo exige presença no gabinete em Brasília, com jornada de 40 horas semanais e um salário bruto de R$4.976 mensais. Apesar das obrigações, investigações revelaram que a servidora segue atendendo pacientes em clínicas particulares em Imbituba e Tubarão, cidades catarinenses a quilômetros da capital federal. Pacientes confirmaram terem recebido consultas da nutricionista durante o horário comercial, período em que teoricamente deveria estar à disposição da deputada na Câmara dos Deputados.

As justificativas públicas, tanto da parlamentar quanto da funcionária, são no mínimo evasivas. Alegam que não existe incompatibilidade de funções, e atribuem parte das atividades a “representação política”, sugerindo – a portas fechadas – uma espécie de licença tácita para conciliar interesses privados e públicos. O caso ganha contornos ainda mais questionáveis pelo vínculo da nutricionista com o marido, advogado que já atuou juridicamente em favor da deputada e segue prestando assistência jurídica ao gabinete, consolidando assim um círculo de favorecimento e interferência entre interesses pessoais e recursos públicos.

Júlia Zanatta, vale lembrar, construiu sua notoriedade em Brasília ao assumir insistentemente pautas ultra-conservadoras. Defende bandeiras como o armamento civil, proteção da vida desde a concepção, liberdade de expressão absoluta e combate à “doutrinação ideológica”, além de ostentar episódios como o da ocupação do plenário levando sua filha de quatro meses como escudo em protesto pró-Bolsonaro – gesto que levou à denúncia formal ao Conselho Tutelar, sob suspeita de exposição indevida de criança em ambiente de conflito institucional.

A incoerência entre o discurso rigoroso – que não tolera concessões – e as concessões feitas dentro do próprio gabinete emerge com força neste novo caso. Mais do que o embate ideológico, o episódio revela os riscos da personalização das estruturas públicas e da fragilidade dos mecanismos de controle parlamentar, especialmente quando exercidos por figuras que transformam cada denúncia em espetáculo, sem se furtar ao uso contínuo da polarização para justificar o injustificável.

O eleitor que confiou em valores cristãos e na defesa da família pode perguntar: o compromisso da deputada com o interesse público é tão estridente quanto sua retórica? Por enquanto, as respostas que vêm do gabinete de Júlia Zanatta são um ruído constrangedor, típico daqueles que arvoram moralidade mas tropeçam em práticas antagônicas à ética republicana.

O Metropolitano

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