Zema volta a atacar sem-teto em entrevista e intensifica discurso higienista
Governador de Minas Gerais compara população de rua a “chiqueiros humanos” e menospreza atuação de entidades de direitos humanos

Luciano Meira
Em entrevista concedida na noite de ontem ao Programa Roda Viva da TV Cultura, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), voltou a manifestar opiniões severamente críticas e preconceituosas sobre as pessoas em situação de rua e as entidades que atuam na defesa de seus direitos. O chefe do executivo mineiro, que se coloca como pré-candidato à Presidência da República, tornou a tratar a questão dos sem-teto com desprezo ao sugerir que as grandes cidades brasileiras estariam se tornando “verdadeiros chiqueiros humanos” pela presença desses cidadãos, culpando ainda o poder público federal pela suposta omissão frente ao tema.
Zema intensifica discurso de exclusão
Durante o programa, Zema negou ter defendido que moradores de rua devem ser “guinchados”, como veículos abandonados, mas sustentou que o poder público deveria adotar regras extremamente rígidas para remover essas pessoas dos espaços urbanos. Ainda segundo sua fala, os indivíduos em situação de rua seriam, em sua maioria, dependentes químicos, vivendo “em condições deploráveis de higiene e segurança”. O governador foi mais longe ao afirmar que os defensores dos direitos humanos deveriam abrir suas próprias casas para acolher a população sem-teto, atribuindo a essas entidades um papel ineficaz e puramente retórico.
O preconceito como política pública
O discurso do governador revela um viés higienista e estigmatizante, responsabilizando as próprias vítimas pelas condições em que vivem e desumanizando suas trajetórias. Especialistas apontam que esse tipo de abordagem aprofunda ainda mais a exclusão social dos sem-teto, que enfrentam barreiras de preconceito e violência, além de terem suas singularidades apagadas por estereótipos que os associam automaticamente à criminalidade e à marginalidade. A insistência no argumento de que rejeitam abrigos ou terapias, sem considerar o contexto de vulnerabilidade e falta de políticas inclusivas, evidencia uma postura de desinformação e desprezo pelas pautas dos direitos humanos.Sem propostas reais e foco no ataque
Apesar de afirmar que é preciso uma “solução central” para a questão dos moradores de rua, Zema não detalhou qualquer política pública concreta no programa, limitando-se a lamentar a situação e apontar o setor federal como responsável. O governador também menosprezou as iniciativas das entidades e profissionais do setor social, sugerindo que causam apenas “perturbação” e incapazes de prover respostas efetivas. O posicionamento evidencia a escolha pela retórica excludente, em detrimento da busca por saídas inclusivas e respeitosas.
Repercussão e perigo das falas discriminatórias
A entrevista gerou forte repercussão negativa entre entidades de direitos humanos, militantes e parte da imprensa, que denunciam o aprofundamento de uma narrativa elitista e excludente por parte de Romeu Zema. Para especialistas, a política do governador acentua a segregação social e legitima práticas discriminatórias, podendo inclusive estimular ações violentas contra uma das populações mais vulneráveis do país. O caso reacende o debate sobre a responsabilidade do discurso público e do poder estatal frente à cidadania e à dignidade humana.