Nada de novo no Novo: Zema faz quase 400 voos oficiais, sendo 34 para Araxá, sua terra natal
Em 382 voos oficiais, 34 foram para cidade natal do governador, enquanto discurso de moralização evidencia distância entre prática e retórica

Luciano Meira
O governador Romeu Zema (Novo) se tornou o centro de uma nova polêmica ao figurar como protagonista de nada menos que 382 voos utilizando aeronaves oficiais entre janeiro de 2023 e agosto de 2025. Dentre as dezenas de municípios no estado, chama atenção as 34 vezes que Araxá aparece nos registros: foram 14 voos com origem e outros 20 tendo o destino na terra natal do governador — mais do que centros econômicos e populacionais tradicionalmente privilegiados nas rotas de representantes estaduais.
Intensificação das viagens e justificativas oficiais
Os quase 400 voos contabilizados, cuja média se resume a uma decolagem oficial a cada 2,5 dias no período, apontam para um uso intensificado da frota especialmente durante a campanha eleitoral de 2024. Só nesse período, o ritmo dos voos dobrou, atingindo quase um voo por dia e demonstrando alinhamento absoluto entre ação institucional e demandas eleitorais.
Quando questionado sobre a frequência surpreendente das viagens para Araxá, o Governo de Minas Gerais preferiu justificar a escolha ressaltando o “papel estratégico e econômico” da região do Triângulo Mineiro, responsável por aproximadamente 18% do PIB estadual. No entanto, os dados brutos, colocam a frequência de voos para Araxá à frente de municípios com maior relevância demográfica no estado e sugerem tratamento, no mínimo, privilegiado à localidade que abrigou tanto sua infância quanto as origens do conglomerado empresarial familiar.
Entre marketing e prática: a imagem do “novo político”
O caso ganha nuances ainda mais ácidas diante do histórico discurso moralista de Romeu Zema, eleito com a promessa de romper com as práticas convencionais da política mineira. Em suas campanhas, criticou o uso de aeronaves do governo, garantiu enxugamento das regalias, abriu mão da residência oficial e posou, reiteradamente, como homem distinto da “velha política”. No entanto, após assumir o Palácio Tiradentes, rapidamente mudou o tom, chegando a considerar os voos oficiais “imprescindíveis”, protagonizando deslocamentos onde se confundiram com compromissos pessoais ou de interesse eleitoral.
Não faltam registros de Zema utilizando os voos oficiais para agendas partidárias, como participação em fóruns ideológicos, eventos empresariais e viagens de bastidores que antecederam seu lançamento como pré-candidato à Presidência da República. Em pelo menos uma dessas ocasiões, usou voo oficial para se deslocar a São Paulo, com o governo alegando uma “agenda institucional” às vésperas do encontro político — e, na volta, surpreendentemente, retornando em voo comercial, como se a moralização pudesse ser escolhida à la carte de acordo com o noticiário do momento.
“Novo” só no nome: repetição de velhas práticas
O script se repete como de hábito entre políticos que iniciam a carreira com promessas de mudança, mas logo no primeiro teste de poder revelam ser mais do mesmo — ou talvez até mais eficientes na construção do próprio personagem do que na transformação das práticas administrativas. O discurso moralizador parece cada vez mais um artifício milimetricamente calculado de marketing eleitoral, sem conexão com a realidade dos fatos.
Sob os olhos atentos do público mineiro e agora de todo o país, Romeu Zema mostra que, apesar do slogan, não há nada de novo na relação entre poder, máquina pública e privilégios — exceto, talvez, a desenvoltura com que recicla o papel da velha política, agora sob o verniz prateado do chamado “novo”.