Bolsonaro lança Flávio como nome para 2026 e testa lealdade da direita

Indicação do filho ocorre em meio à inelegibilidade e condenações do ex-presidente, provoca forte reação negativa do mercado e expõe disputa por espaço no campo bolsonarista

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – Foto: Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

O ex-presidente Jair Bolsonaro indicou publicamente o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como pré-candidato do bolsonarismo à Presidência da República em 2026, movimento que se dá em meio à inelegibilidade prolongada e à condenação criminal do próprio Bolsonaro, hoje impedido de disputar eleições por décadas. A entrada de Flávio no tabuleiro presidencial provocou forte reação negativa do mercado financeiro e é lida, inclusive dentro da direita, como um “balão de ensaio” para testar a força do sobrenome Bolsonaro, medir lealdades e identificar quem se mantém alinhado ao clã e quem busca alternativas.Pai inelegível até 2060

Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral por oito anos, a partir de 2022, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em reunião com embaixadores na qual atacou o sistema eleitoral. Em 2025, uma condenação no Supremo Tribunal Federal no caso da trama golpista ampliou o horizonte de inelegibilidade, e decisões recentes apontam para a impossibilidade de o ex-presidente concorrer até aproximadamente 2060, na prática retirando-o das próximas disputas nacionais.

Por que o filho entra em cena

Diante da impossibilidade jurídica de disputar a Presidência, Bolsonaro passou a operar abertamente para manter o comando político do campo que leva seu nome, oferecendo Flávio como herdeiro imediato desse capital eleitoral. A indicação também é um recado para outros nomes da direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, até aqui visto por parte do mercado e de aliados como candidato natural, de que qualquer candidatura competitiva à direita passará pelo aval do ex-presidente e de sua família.

Trajetória política de Flávio

Flávio Bolsonaro iniciou a carreira como deputado estadual no Rio de Janeiro, cargo que ocupou por quatro mandatos, projetando-se nacionalmente na esteira da ascensão do pai e da onda conservadora de 2018. Em 2018, foi eleito senador pelo Rio com votação expressiva, tornou-se uma das principais vozes do bolsonarismo no Congresso e atuou nos bastidores na articulação política do governo federal, embora sem ocupar postos formais no primeiro escalão do Executivo.

Escândalos: rachadinha e mansão em Brasília

A trajetória do senador é marcada por denúncias de um esquema de “rachadinha” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, no qual parte dos salários de assessores seria desviada por meio do ex-assessor Fabrício Queiroz; o Ministério Público do Rio acusou Flávio de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita, o que ele nega, alegando perseguição política. As investigações também apontaram uso de dinheiro em espécie e operações imobiliárias suspeitas, em um contexto que ganhou novo combustível com a compra, em 2021, de uma mansão em área nobre de Brasília, avaliada em cerca de R$ 6 milhões, negócio que levantou dúvidas sobre a origem dos recursos e a compatibilidade com os rendimentos declarados do senador.

Reação dura do mercado financeiro

O anúncio da pré-candidatura de Flávio foi seguido por um dia de forte tensão no mercado financeiro, com queda acentuada do Ibovespa e disparada do dólar, em movimento atribuído por analistas à surpresa com a escolha do filho de Bolsonaro e ao temor de que isso afaste uma candidatura considerada mais moderada e previsível, como a de Tarcísio de Freitas. Comentários de casas de análise e de economistas apontam que o nome de Flávio tende a dificultar alianças mais amplas ao centro e a aumentar a percepção de risco político, ao sinalizar uma eventual radicalização do bolsonarismo em torno da família e a persistência de incertezas institucionais.​

Dentro do próprio bolsonarismo, a pré-candidatura de Flávio é tratada por aliados e analistas como um possível “balão de ensaio”: uma movimentação antecipada para testar a recepção do eleitorado, do empresariado e de lideranças partidárias ao sobrenome Bolsonaro sem o pai na urna. A indicação permite ao ex-presidente mapear quem está disposto a seguir com a família até o fim e quem busca se afastar ou apostar em alternativas, ao mesmo tempo em que mantém o clã no centro do debate público em um cenário em que Jair Bolsonaro enfrenta condenações e um horizonte longo de inelegibilidade.

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