Fechado com Bolsonaro: Silvinei Vasques é transferido para presídio da PF em Brasília
Ex-diretor da PRF, condenado a 24 anos e 6 meses por participação na trama golpista, rompeu tornozeleira, tentou sair do país via Paraguai rumo a El Salvador e acabou expulso e entregue à Polícia Federal

Luciano Meira
O ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques foi transferido na manhã deste sábado (27) para a sede da Polícia Federal (PF) em Brasília, em voo oficial, após ser preso no Paraguai ao tentar embarcar para El Salvador com documentos falsos e ser expulso pelo país vizinho. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 24 anos e 6 meses de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, ele rompeu a tornozeleira eletrônica na véspera de Natal, fugiu de Santa Catarina em um carro alugado e acabou detido no aeroporto de Assunção quando se preparava para deixar a América do Sul.
Quem é Silvinei Vasques
Silvinei Vasques foi diretor-geral da PRF durante o governo Jair Bolsonaro e ganhou projeção nacional pela atuação da corporação em operações de fiscalização de trânsito e em ações ligadas à segurança durante o período eleitoral de 2022. Em outra frente, ele já havia sido condenado na Justiça Federal do Rio de Janeiro por uso político da estrutura da PRF para favorecer a campanha de Bolsonaro, recebendo multa superior a R$ 500 mil e outras sanções cíveis.
No julgamento da chamada “trama golpista” no STF, Vasques foi sentenciado a 24 anos e 6 meses de prisão em regime inicial fechado e a 120 dias-multa. A Corte o considerou culpado pelos crimes de golpe de Estado, abolição do Estado Democrático de Direito, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e organização criminosa, além de decretar perda de cargo público, inelegibilidade e responsabilização solidária em indenização de R$ 30 milhões.
Papel na tentativa de golpe
Segundo o STF e a Procuradoria-Geral da República, a atuação de Vasques na PRF integrou o núcleo operacional do plano para contestar o resultado das eleições de 2022 e tentar manter Jair Bolsonaro no poder. Nas investigações, ele foi apontado como responsável por ordenar operações da PRF que bloquearam ou atrasaram o trânsito em rodovias de regiões onde Lula tinha forte eleitorado, durante o segundo turno, num esforço para dificultar o acesso de eleitores às urnas.
A condenação ressaltou que a estrutura da PRF foi usada como instrumento político, com desvio de finalidade e violação de deveres funcionais para enfraquecer o processo eleitoral e dar sustentação logística à tentativa de golpe de Estado. Para os ministros, a combinação de ações de rua, ataques às instituições e uso de órgãos de Estado configurou organização criminosa voltada a abolir o Estado Democrático de Direito.
A fuga pelo Paraguai
A fuga de Silvinei começou na noite de 24 de dezembro, véspera de Natal, quando ele deixou o condomínio em que morava em São José (SC), rompendo a tornozeleira eletrônica que usava como medida cautelar após a condenação. Ele percorreu cerca de 1.300 quilômetros até o Paraguai em um carro alugado, levando um cachorro, em uma viagem estimada em ao menos 18 horas, segundo a PF.
Em Assunção, o ex-diretor da PRF adotou uma série de artifícios para tentar escapar da Justiça brasileira: utilizou passaporte paraguaio e uma célula de identidade em nome de outra pessoa, mudou o penteado e portava inclusive um documento que alegava ter câncer na cabeça, condição que supostamente o impediria de falar. O plano era embarcar no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi em direção a El Salvador, com escala no Panamá, o que o colocaria fora do alcance imediato das autoridades brasileiras.
Prisão em Assunção e entrega à PF

A tentativa de fuga fracassou na manhã de sexta-feira (26), quando a polícia paraguaia identificou as irregularidades nos documentos no momento do embarque e prendeu Silvinei no aeroporto de Assunção. A PF já havia acionado alertas nas fronteiras após detectar a interrupção do sinal da tornozeleira na madrugada de Natal e verificar que o ex-diretor não estava em casa.
Após a prisão, o ministro Alexandre de Moraes converteu a prisão domiciliar em prisão preventiva, apontando que Silvinei tentava driblar decisões judiciais ao fugir do país usando identidade falsa. Poucas horas depois, a polícia paraguaia levou o ex-diretor da PRF, algemado e com capuz na cabeça, até um posto de controle migratório na Ponte da Amizade, em Ciudad del Este, onde ele foi formalmente expulso e entregue a agentes da PF brasileira na tríplice fronteira.
Transferência para Brasília e próximos passos
Depois de receber Silvinei na fronteira, a PF o levou inicialmente para a sede da corporação em Foz do Iguaçu (PR), onde ele passou a noite sob custódia. Na manhã deste sábado, uma aeronave oficial decolou da cidade paranaense rumo a Brasília, transportando o ex-diretor da PRF para a carceragem federal no Distrito Federal, onde ficará à disposição do STF para cumprimento da prisão preventiva e, posteriormente, da pena da ação penal da trama golpista.
A defesa de Vasques já havia indicado que pretende recorrer da condenação e pedir redução da pena, movimento que deve continuar mesmo após a tentativa de fuga, embora a escapada possa pesar na análise de benefícios futuros. Ao mesmo tempo, a reação do STF foi ampliar medidas de controle sobre outros condenados pelo golpe, determinando, por exemplo, a adoção de prisão domiciliar e monitoramento reforçado para investigados em situação semelhante.
