Eduardo Cunha mira vaga em Minas com emendas milionárias
Ex-presidente da Câmara, condenado na Lava Jato, usa 'gentilezas' de aliados para comprar apoio em João Pinheiro apesar de ficha suja

Luciano Meira
O ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-RJ), cassado em 2016 e condenado a mais de 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato, destina emenda de R$ 1,05 milhão à Saúde de João Pinheiro (MG), no noroeste mineiro, onde pavimenta retorno à Câmara nas eleições de 2026. Sem mandato para indicar recursos, ele obteve a “gentileza” do deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG), líder partidário, enquanto o prefeito local agradece publicamente e promete mais verbas, em manobra que cheira a clientelismo eleitoral. Cunha, que transferiu domicílio para Belo Horizonte, investe em rádios locais, igrejas evangélicas e patrocínios a times para seduzir eleitores mineiros, ignorando o histórico que o levou à prisão por três anos.
Histórico de corrupção e prisão
Eduardo Cunha presidiu a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2016, período marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff, mas sua trajetória desabou com revelações da Lava Jato sobre propinas de US$ 5 milhões em contratos da Petrobras com Benin, lavadas em contas secretas na Suíça. Condenado em 2017 pelo juiz Sérgio Moro a 15 anos e quatro meses por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ele cumpriu prisão preventiva em Curitiba desde outubro de 2016, convertida em domiciliar em 2019, com tornozeleira até 2021, após delações confirmarem seu esquema. Cassado pelo Conselho de Ética da Câmara por mentir ao CPMI da Petrobras sobre patrimônio offshore, Cunha só saiu da cadeia graças a habeas corpus questionável do STF, mas segue inelegível pela Ficha Limpa — salvo manobras judiciais.
Estratégia em Minas Gerais
Após fracasso como candidato em São Paulo em 2022 (5 mil votos), Cunha mira Minas como novo quintal eleitoral, abrindo rádios em João Pinheiro e Uberaba, frequentando cultos evangélicos e articulando com vereadores locais como Guilherme Coxa (PP), que o exalta por “investimentos” apesar da ausência de mandato. O vereador intermediou a emenda, cinco vezes maior que as impositivas municipais, enquanto o prefeito Gláucon Cardoso (Novo) divulga vídeo de agradecimento, prometendo mais R$ 1 milhão — um toma-lá-dá-cá que escancara o oportunismo do ex-presidiário. Ainda filiado ao Republicanos, ele precisa trocar de partido até abril para concorrer, apostando no esquecimento coletivo.
Críticas e alertas
Deputados e analistas mineiros, como Gabriel Azevedo, alertam contra a “invasão” de Cunha, comparando-o a políticos que desonram a tradição de JK e Tancredo Neves, e questionam se Minas virará “abrigo para corruptos”. Críticos apontam hipocrisia: o mesmo que reclamou de punições a desvios de emendas agora as usa para caçar votos, em estratégia que ignora condenações e prisão, apostando na memória curta do eleitorado. Cabe aos mineiros rejeitar essa volta de um símbolo da velha corrupção, que trocou a cadeia pelo palanque com dinheiro público.
