Urnas operam milagres: Marco Feliciano abraça divórcio para pastores

Deputado pregava oração em vez de delegacia para vítimas de violência doméstica

Deputado federal Marco Feliciano (PL/SP) – Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

O deputado federal Pastor Marco Feliciano, do PL-SP, protagoniza uma guinada retórica que soa como milagre eleitoral: após anos defendendo o casamento indissolúvel e minimizando denúncias de violência doméstica em igrejas como assunto para “círculo de oração”, o parlamentar agora clama que a igreja “não pode mais ignorar o divórcio”. Em vídeo publicado no Instagram no início de janeiro de 2026, ele diferencia crises conjugais de abusos, mas o tom conciliador com o fim do casamento surge convenientemente no ano de eleições em outubro próximo, quando o voto feminino pode pesar nos púlpitos.

Contradição com o passado recente

Em 2024, Feliciano viralizou ao narrar que, para crentes assembleianos, “delegacia não é a 25ª DP, é o círculo de oração”, aplaudido por fiéis como solução para queixas, inclusive de violência doméstica. A fala, que incentivava levar “bilhetinhos” às orantes em vez de polícia, foi vista como silenciamento de vítimas de violência doméstica, priorizando reputação eclesial sobre justiça. Dois anos depois, o pastor admite que “fingir que o divórcio não existe não é santidade, é negligência pastoral”, questionando convenções que barram divorciados do púlpito.Essa metamorfose não é isolada: Feliciano, conhecido por posições rígidas contra divórcio e temas progressistas, oscila conforme ventos políticos, do apoio irrestrito a Bolsonaro à moderação recente em pautas femininas. Críticos veem oportunismo em série, com o deputado usando púlpitos para angariar fiéis enquanto navega agendas eleitorais.

Manobra eleitoral no púlpito

Às vésperas das urnas, a série de vídeos diários sobre divórcio soa como caça ao voto feminino evangélico, base eleitoral que Feliciano parece temer perder para candidaturas mais empáticas com vítimas de violência. Ele se diz “contra o divórcio”, mas critica igrejas que “fecham os olhos” para o fenômeno, ecoando “narrativas de esquerda” que ele outrora rotulava imorais. A jogada ignora o histórico de omissão religiosa em casos de abuso, onde “oração” substituiu proteção legal, perpetuando ciclos de sofrimento.

Nas redes, repercussão mistura apoio de fiéis com acusações de incoerência, enquanto o deputado colhe curtidas em pregações que misturam Bíblia e cálculo eleitoral. Para eleitores atentos, a mudança reforça o padrão: princípios flexíveis como borracha, esticados pelo calendário eleitoral.

Histórico de oscilações políticas

Desde a eleição de 2011, marcada por polêmicas racistas e homofóbicas, Feliciano construiu carreira no conservadorismo evangélico, bancada da Bíblia que impôs agendas anti-LGBTQ+ e pró-família tradicional. Mudanças recentes, como defesa de divórcio para pastores, contrastam com veto a uniões homoafetivas e ênfase em submissão feminina. Analistas apontam estratégia para 2026, quando renovação na Câmara exige ampliação de base além do macho alfa bolsonarista.

O episódio expõe fragilidade de lideranças que pregam absolutos divinos, mas dobram joelhos ante pesquisas eleitorais, trocando “Deus odeia o divórcio” por “negligência pastoral”. Para vítimas silenciadas em 2024, o “milagre das urnas” chega tarde, revelando fé mais em votos que em coerência.

O Metropolitano

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