Master, o banco que virou um labirinto institucional

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Luciano Meira

Há um dilema logístico para os editores de jornais e portais de notícias no Brasil de hoje: onde encaixar as atualizações diárias sobre o caso do Banco Master?

Se o critério for a fraude bilionária de R$ 47 bilhões, as carteiras de crédito fictícias vendidas ao Banco de Brasília (BRB) e a liquidação decretada pelo Banco Central, o lugar natural seria a editoria de Economia. Se o foco recair sobre a “Operação Compliance Zero”, as prisões (e solturas) de Daniel Vorcaro e as teias que ligam o grupo ao crime organizado e lavagem de dinheiro, o caso pertence às páginas de Polícia. Contudo, diante das reuniões em mansões brasilienses e da estranha permanência do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) — mesmo sem réus com foro privilegiado — o assunto é puro suco de Política.

O Banco Master conseguiu a proeza de unificar as três áreas em um escândalo que, a cada depoimento, exala um odor cada vez mais insuportável.A condução do caso pelo ministro Dias Toffoli tem gerado um desconforto que ultrapassa os corredores da Polícia Federal e alcança a opinião pública. A revelação de que fundos ligados ao banco adquiriram participações em resorts de familiares do ministro, ou que executivos do esquema circulavam com desenvoltura entre magistrados, coloca a Corte em uma posição defensiva e perigosa.

Aqui, é preciso separar o joio do trigo com precisão cirúrgica. A tentativa de desqualificar o STF como instituição, partindo de setores que buscam o caos, “cheira mal” e serve a propósitos autoritários. No entanto, o envolvimento eventual de membros da Corte no “ecossistema Master” cheira igualmente mal. O grande perigo reside em uma ironia trágica: usar as críticas à conduta individual de ministros para paralisar a própria justiça. Desqualificar a atuação do Tribunal por completo é abrir um caminho largo para que o “buraco negro” de R$ 23 bilhões nunca seja totalmente investigado.

Giuseppe Tomasi di Lampedusa escreveu em O Leopardo que, às vezes, “é preciso que tudo mude para que tudo fique como está”. No caso Master, o Brasil assiste a uma coreografia que parece seguir esse roteiro: prisões cinematográficas em aeroportos seguidas de solturas rápidas com tornozeleiras eletrônicas; notas de repúdio institucionais que não respondem às perguntas objetivas sobre conflitos de interesse; e uma “blindagem corporativa” que tenta colocar a Corte acima do escrutínio público.

A sociedade, no entanto, não aceita mais o transformismo político que mantém o privilégio dos “vips” enquanto o sistema financeiro é sangrado. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e os fundos de pensão, como o Rioprevidência, não são fontes inesgotáveis de dinheiro público para sustentar pirâmides financeiras sofisticadas.

Se o caso Master terminar em pizza, a mensagem será clara: o crime compensa, desde que você tenha os contatos certos no GPS de Brasília. A resposta exigida é a transparência absoluta e a cadeia para quem merecer, independentemente do sobrenome ou do cargo. O Brasil não pode permitir que o Master seja apenas mais um capítulo da nossa eterna “mudança para que nada mude”.

Luciano Meira

Editor do portal O Metropolitano
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