À Luz da Manjedoura: entre o barulho das festas e o silêncio do sagrado

Rafael Penido Vilela Rodrigues
Então, é Natal!
A data cristã mais importante; o princípio do mistério que move o mundo ocidental há cerca de dois mil e vinte e cinco anos.
Na noite do dia 24 para o dia 25 de dezembro, o mundo desacelera por algumas horas. As casas iluminadas, as mesas esbanjadas, os copos transbordando… Noutros lares, as bocas famintas, os olhos fundos, as mãos estendidas… (Eis a verdadeira manjedoura!).
Enquanto para uns o Natal se resume a presentes, comidas fartas e brindes repetidos, existe algo mais profundo por trás do barulho das celebrações. Um silêncio antigo, um significado simbólico que atravessa civilizações, mitologias e religiões.
Muito antes de o Natal cristão ganhar forma, mestres do passado, de diferentes credos, raças e culturas, já reconheciam esse tempo como um ponto de passagem. Na mitologia celta, dizia-se que a Mãe Terra dava à luz a Criança Sol, anunciando o retorno da luz após a noite mais longa do ano. No Egito antigo, celebrava-se o nascimento de Hórus, o deus-sol, símbolo da renovação da ordem e da vida. No cristianismo, nasce o menino Jesus, Deus feito carne, promessa de salvação. No hinduísmo, comemora-se o nascimento de Krishna, manifestação divina entre os homens. Na Umbanda, celebra-se Oxalá, o grande orixá, aquele que integra as forças da natureza e sustenta a ordem do mundo.
À primeira vista, essas narrativas podem parecer apenas coincidências históricas ou criações paralelas do imaginário humano. Para alguns, são provas de um mesmo arquétipo espiritual que atravessa culturas; para outros, apenas a tentativa humana de nomear suas forças mais profundas. Mas talvez isso seja secundário. O que realmente importa é aquilo que todas essas celebrações compartilham.
Em todas elas, algo nasce. A luz retorna. Um novo tempo se anuncia.
E, com ele, reaparece uma exigência ética simples, mas categórica: amar uns aos outros. É tempo de perdoar as ofensas, esquecer as injúrias, cultivar o trabalho, o lar, a família e a alegria de estarmos juntos – não como obrigação social, mas como laço de fraternidade verdadeira.
Talvez o Natal não seja, afinal, um evento histórico a ser comprovado de fato, mas um símbolo a ser vivido; um significado a ser absorvido. Por isso, o Natal é antes de tudo um lembrete anual de que o mundo só se sustenta quando os homens decidem, ainda que por um instante, suavizar o peso da existência e se abrirem ao amor verdadeiro.
Então, quando a celebração chegar, que não seja apenas mais uma data no calendário; que as crianças não esperem somente a chegada do “papai Noel”. Mas que cada um permita que o seu coração se abra – não para receber coisas, mas para tornar-se coisa rara: uma forma de luz.
E que essa luz, silenciosa e discreta, possa brilhar no interior de cada um.
FELIZ NATAL!

