Berço do Fascismo e da Máfia, decisão da Justiça italiana fornece argumento contra Alexandre de Moraes
Advogado de Carla Zambelli cogita usar decisão para processar Ministro

Luciano Meira
Ação anunciada pela defesa de Carla Zambelli contra Alexandre de Moraes ocorre após corte da Itália apontar possível violação ao princípio da imparcialidade no processo de extradição
A decisão da defesa da ex-deputada federal Carla Zambelli de estudar uma ação judicial contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes acrescenta um novo capítulo ao embate político e jurídico envolvendo a parlamentar, atualmente na Itália. A iniciativa ocorre após a Corte de Cassação de Roma, instância máxima da Justiça italiana, negar um pedido de extradição relacionado à condenação da ex-deputada no caso da invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Segundo a decisão, haveria elementos capazes de suscitar dúvidas sobre a imparcialidade objetiva do julgamento conduzido no Brasil.
De acordo com a fundamentação divulgada pela corte italiana, Moraes teria acumulado, em diferentes momentos do processo, as posições de vítima e julgador, circunstância que, na avaliação dos magistrados italianos, comprometeria o princípio da imparcialidade judicial. O documento menciona a existência de “insuficiência e ilogicidade da fundamentação” diante da concentração dessas funções na mesma autoridade.
Foi nesse contexto que o advogado de Zambelli, Fábio Pagnozzi, passou a avaliar medidas judiciais contra o ministro no Brasil. A defesa sustenta que a decisão italiana reforça críticas já apresentadas ao longo da tramitação do caso e pode servir de base para questionamentos sobre a condução do processo.
Além dos desdobramentos jurídicos, o episódio produz efeitos políticos relevantes. O primeiro deles é o fortalecimento da narrativa adotada por setores da direita e ao STF. A conclusão da Justiça italiana oferece um argumento de natureza internacional para sustentar denúncias de perseguição política e de supostos excessos cometidos pelo sistema judicial brasileiro. Ao partir de uma corte estrangeira, o entendimento tende a ser explorado por lideranças conservadoras como uma validação externa de críticas que já vinham sendo formuladas internamente, na intenção de eventualmente impactar demais decisões da Corte brasileira.
O segundo impacto está no desgaste institucional. Ao apontar possível comprometimento da imparcialidade do julgamento, a Corte de Cassação leva um debate antes restrito ao ambiente político nacional para o plano internacional. A decisão expõe o funcionamento do Judiciário brasileiro ao escrutínio de autoridades estrangeiras e pode gerar ruídos diplomáticos entre Brasil e Itália, especialmente em processos de cooperação judicial e pedidos futuros de extradição.
O terceiro efeito envolve a execução de penas impostas pela Justiça brasileira. A negativa de extradição abre precedente político para o debate sobre a situação de investigados ou condenados que possuam dupla cidadania. Na prática, a permanência de Zambelli em território europeu demonstra como cidadãos com nacionalidade estrangeira podem encontrar obstáculos jurídicos para serem enviados ao Brasil, permanecendo em liberdade enquanto recursos e procedimentos judiciais seguem em tramitação.
Especialistas observam que a decisão italiana não anula as condenações impostas pelo STF nem produz efeitos automáticos sobre outros processos. Ainda assim, o episódio amplia o debate sobre garantias processuais, limites da atuação judicial e cooperação internacional em matéria penal.
Até o momento, o Supremo Tribunal Federal e o gabinete do ministro Alexandre de Moraes não haviam se manifestado publicamente sobre os fundamentos apontados pela Corte de Cassação italiana.
A controvérsia tende a permanecer no centro da disputa política brasileira. Enquanto a defesa de Zambelli busca transformar o entendimento da Justiça italiana em instrumento de contestação jurídica, setores da oposição veem no episódio uma oportunidade para reforçar críticas às instituições brasileiras perante a opinião pública nacional e internacional.
A repercussão do caso também reabre discussões sobre o peso político e simbólico das decisões judiciais proferidas em diferentes países. A Itália ocupa lugar singular na história contemporânea por ter sido o berço do fascismo sob a liderança de Benito Mussolini, além de ter convivido por décadas com a influência de organizações mafiosas como a Cosa Nostra, a Camorra e a ‘Ndrangheta. Ao mesmo tempo, o país consolidou, após a Segunda Guerra Mundial, instituições democráticas e um sistema judicial integrado ao arcabouço jurídico da União Europeia. Nesse contexto, a decisão envolvendo Carla Zambelli tende a alimentar interpretações divergentes: enquanto apoiadores da ex-deputada a apresentam como uma chancela internacional às críticas dirigidas ao STF, seus adversários argumentam que o histórico político italiano não deve ser utilizado como parâmetro para avaliar a legitimidade das instituições brasileiras.


