Brasil reforça condenação a ataque dos EUA na Venezuela e espera reunião do Conselho de Segurança da ONU
Itamaraty mantém crítica à operação norte-americana, alinha posição à de Lula e participa de articulação diplomática em Nova York e na Celac

Luciano Meira
O governo brasileiro reiterou, neste sábado (3), a condenação ao ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e informou que aguarda a reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, convocada para discutir a operação que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. A posição foi detalhada pela ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, após nova rodada de reuniões em Brasília sobre a crise, e reforça a defesa brasileira do respeito à soberania venezuelana e ao direito internacional. O Brasil também confirmou presença em encontros na ONU e na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) para tratar da escalada de tensão na região.
Linha diplomática do Brasil
De acordo com o Itamaraty, o Brasil “mantém a posição de condenar a ação militar” dos Estados Unidos e de cobrar uma resposta vigorosa das Nações Unidas, em sintonia com manifestação anterior do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em mensagem publicada nas redes sociais, Lula classificou os bombardeios em território venezuelano e a captura de Maduro como uma “afronta gravíssima” à soberania do país e um precedente perigoso para a comunidade internacional.
A ministra interina Maria Laura da Rocha afirmou que a diplomacia brasileira seguirá trabalhando para uma reação coletiva no âmbito da ONU, reforçando o compromisso histórico do país com o não uso da força e com a solução pacífica de controvérsias. Segundo relatos do governo, o chanceler venezuelano Yvan Gil agradeceu, em contato recente, a solidariedade expressa pelo Brasil diante da operação norte-americana.
Reunião do Conselho de Segurança da ONU
O Brasil participará, na segunda-feira (5), da reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU convocada para tratar da ofensiva dos EUA e da captura de Nicolás Maduro, solicitada pelo governo venezuelano. A sessão discutirá a denúncia de “agressão” apresentada por Caracas e o enquadramento da operação à luz da Carta das Nações Unidas, em meio a alertas de que o caso pode criar um precedente de intervenção armada na América Latina.
Diplomatas no Conselho indicam que há esforço para que o encontro resulte em algum tipo de posicionamento sobre o uso da força, ainda que a divisão entre membros permanentes reduza as chances de uma resolução de condenação explícita aos Estados Unidos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já afirmou estar “profundamente alarmado” com a situação e advertiu que a ação norte-americana pode representar um “precedente perigoso”.
Mobilização interna do governo brasileiro
Em Brasília, o presidente Lula coordenou, por videoconferência, reuniões com ministros da Defesa, Justiça, Casa Civil, Secretaria de Comunicação e diplomatas para avaliar os impactos da crise na fronteira e na comunidade brasileira na Venezuela. O governo informou que não há registro de brasileiros entre possíveis vítimas dos ataques e que a embaixada em Caracas monitora a situação de perto.
O ministro da Defesa, José Múcio, declarou que o cenário na fronteira em Roraima é considerado “tranquilo” e que as Forças Armadas seguem mobilizadas e em observação, sem indicação, até o momento, de riscos diretos à segurança do território brasileiro. A avaliação preliminar de militares é de que a ação dos EUA teve caráter pontual, voltado à captura de Maduro, sem efeitos imediatos operacionais para o Brasil.
Reações regionais e riscos para a América Latina
Além da agenda em Nova York, o Brasil participará neste domingo (4) de reunião ministerial da Celac para discutir a ofensiva dos EUA e seus impactos para a estabilidade política e de segurança na América Latina e no Caribe. O bloco, que reúne 33 países em desenvolvimento do continente, é visto por Brasília como fórum chave para articular uma posição comum regional em defesa da soberania venezuelana.
A Venezuela descreveu a operação norte-americana como “grave agressão militar” e pediu, com urgência, que o Conselho de Segurança condene os ataques e exija sua cessação, além de medidas para responsabilizar Washington. Especialistas em relações internacionais alertam que a captura de um chefe de Estado em exercício por uma potência estrangeira, sem mandato explícito da ONU, tende a acentuar polarizações geopolíticas e tensionar ainda mais a relação entre Estados Unidos e países latino-americanos que rejeitam intervenções externas.
