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Com Lula em alta, PL e Centrão já antecipam a batalha de 2027

O Congresso acelera medidas de alto custo fiscal justamente quando Lula volta a crescer nas pesquisas e a oposição enfrenta novos desgastes políticos

Presidente Lula (PT) – Reprodução Redes Sociais

Luciano Meira

A aprovação pelo Senado de mais uma pauta de elevado impacto fiscal, desta vez o aumento do piso salarial de médicos e dentistas, já havia sido aprovado o aumento do piso para dificilmente pode ser vista apenas como um gesto de generosidade parlamentar. Em Brasília, o calendário eleitoral costuma começar muito antes da campanha oficial. E os sinais emitidos pelo Congresso sugerem que parte da oposição já passou a trabalhar com uma hipótese que, até poucos meses atrás, parecia distante: a possibilidade real de um novo mandato para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As pesquisas divulgadas nas últimas semanas reforçaram essa percepção. Depois de um período de instabilidade, Lula voltou a mostrar força eleitoral e capacidade de polarização. Mais importante do que os números absolutos é a tendência observada por analistas: enquanto o presidente recupera terreno, seus principais adversários continuam enfrentando dificuldades para construir uma candidatura competitiva e unificada.

Ao mesmo tempo, a direita passou a conviver com desgastes que atingem justamente personagens centrais do campo bolsonarista. As revelações envolvendo negociações de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro produziram um constrangimento político que ultrapassou as fronteiras da imprensa tradicional, a crise criada pelo chamado Tariflávio, com mais tarifas impostas ao Brasil pelo governo Trump após a visita dos Bolsonaros, Flávio e Eduardo. Independentemente das conclusões que cada eleitor tire do episódio, o caso retirou a oposição de sua zona de conforto e recolocou em debate temas que seus dirigentes prefeririam evitar em ano pré-eleitoral.

Também não ajudaram as sucessivas controvérsias envolvendo Eduardo Bolsonaro. Em princípio o dinheiro de Daniel Vorcaro para financiar o tal filme foi para um fundo que é administrado também por Eduardo, a seguir surgiram as discussões sobre o Pix, acabaram associando o ex-deputado a um debate particularmente sensível. O sistema de pagamentos instantâneos tornou-se uma das raras políticas públicas capazes de reunir aprovação quase unânime entre brasileiros de diferentes correntes ideológicas. Quando Eduardo mencionou alternativas americanas e chegou a citar o sistema financeiro dos Estados Unidos como referência, abriu espaço para críticas de que setores da oposição demonstrariam mais preocupação com interesses externos do que com a defesa de uma inovação criada e consolidada no Brasil.

Nesse contexto, a multiplicação das chamadas pautas-bomba parece menos uma coincidência legislativa e mais um movimento político. A leitura que se impõe é que parte do Congresso já começa a se preparar para um cenário de continuidade do atual governo. Se a vitória de Lula ainda está longe de ser garantida, também já não parece uma hipótese remota. E quando essa percepção ganha força nos corredores de Brasília, surge a tentação de impor desde já obstáculos ao próximo ocupante do Palácio do Planalto.

A história política brasileira oferece inúmeros exemplos desse comportamento. Quando determinados grupos enxergam dificuldades para vencer uma eleição, passam a disputar o terreno do dia seguinte. Criam despesas permanentes, ampliam compromissos fiscais e reduzem a margem de manobra do futuro governo. Não se trata necessariamente de derrotar o adversário nas urnas, mas de dificultar sua vida caso ele vença.

Por isso, o debate sobre o piso de médicos, dentistas e aposentadoria integral para agentes de sáude vai muito além da valorização de uma categoria profissional. O que está em discussão é a utilização do orçamento público como instrumento de disputa política antecipada. E os sinais emitidos pelo Congresso indicam que muitos parlamentares já estão menos preocupados com a eleição de 2026 do que com a possibilidade de acordar em 2027 diante de um Lula fortalecido e com condições de governar.

Os acontecimentos recentes reforçam uma lição que costuma ser esquecida nas disputas presidenciais: eleger um presidente sem construir uma base parlamentar sólida é abrir caminho para a instabilidade do mandato seguinte. Caso Lula seja reeleito, a governabilidade de um eventual quarto mandato dependerá não apenas do resultado da disputa pelo Palácio do Planalto, mas também da composição da Câmara e do Senado. Um Congresso majoritariamente alinhado à oposição tende a ampliar o poder de bloqueio sobre projetos do Executivo, dificultando a execução do programa escolhido nas urnas e favorecendo a aprovação de medidas que imponham restrições políticas e fiscais ao governo. Para os eleitores que defendem a continuidade do atual projeto político, a eleição de deputados e senadores comprometidos com essa agenda pode ser tão importante quanto a própria eleição presidencial.

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