Disjuntor

Reprodução – Arte RMC

Sentiu?

Deu tempo de vocês perceberem; Anotaram a placa? Acho que não, né! Somos atropelados muitas vezes sem nos dar conta. Sem prestarem contas, o que também é doloroso.

Nem um aviso. Advertência. Quando a gente percebe, estamos a mijar pelas pernas abaixo.

Surpreendidos.

Rabos presos em ratoeiras. Imagens artificiais, quase reais, a nos encantar.

E o mundo pegando fogo.

Narciso pelo menos, cultuava sua própria imagem.

Aqui, hoje, buscamos e adoramos a falsa imagem. Desejamos ser hologramas. Desejamos nos tornar artificiais. E estamos conseguindo.

Que fase. Agosto de dois mil e vinte cinco.

Devemos ter colado nossos pés, no visgo. Ficamos grudados feito os pés dos passarinhos.

Lembram? Presos em armadilhas.

Muda o dia, o mês, o ano e cá estamos, fixados num movimento que embrulha o estômago. Que bizarro existir. Pra dentro e pra fora.

Lá fora, os excessos a olhos vistos. Vistos, negados;

Vistos, caçados;

Vistos, Os malvistos. Os bem quistos. Os necessários. Os extraordinários, vistos.

Insisto, que fase Zé!

Bifásico ou trifásico?

Tô falando do disjuntor que devo adquirir e acoplar em mim.

Monofásico com certeza não é!

Alta tensão, carga pesada…

E no entanto, Ainda Estamos Aqui.

Meu amigo planeja mudar-se para África e depois Canadá. Uma temporada só; Fazer um curso de inglês e tirar uma fase, digamos, Sabática.

Por aqui, meus dedos apalpam apagadores. Intuo o excesso de tomadas nas paredes carnes. Prótons,

Nêutrons e Elétrons.

Eletrodoméstico em demasia.

Lavanderia, sauna, piscina.

Consegue imaginar tudo isso, no próprio corpo?

Um imóvel de carne e osso, e algum sentimento.

Precisamos ter quantas fases pra dar conta. Para qual padrão eu direciono a Cemig se aqui dentro, no meu peito, fechar algum curto? Tem partes nessa engenharia humana que já não respondem aos estímulos. Estão apagadas. Talvez queimadas. Lâmpadas que nem piscam. Termômetros oscilando.

Nosso sistema elétrico dá vestígios de pani. Freezer descongelando. Pelos olhos.

Tensão prevista no passado e há algum tempo, sendo sentida. E parece que nem as crianças estão dando conta desse sistema elétrico, nem os cães. Precisamos marcar uma consulta com o

Engenheiro dessa casa corpo.

Casa sem cor. Casa Cor.

Casulos em constantes metamorfoses, metamorFASES. Tempo implacável.

Passando. Passa logo.

Providência divina.

Quero asas. Fase do voo.

Borda pelas bordas, enfeita, pinta. Fazei com que eu sinta, o corpo se abrir, rasgar…

Extirpa esse verme, sangra essa berne. Ainda que seja cravo ou espinha, faz em meu rosto alquimia…

Me deixe com ares de limpinho. Pois é muita sujeira pra todo lado e eu temo ficar ainda mais impregnado. Por isso, alivia.

Caso o contrário, jogo a toalha e também me vou.

Mas eu diferente do amigo, sigo detestando o inglês. Ainda mais travestido de tarifaço. Sou mais BRICS. Elo. E orgulho do PIX. Por aqui ainda fico.

Mas penso em fazer outro curso, se for pra mudar de fase. Talvez Paisagismo ou Jardinagem.

Sim, mergulhar nessas matérias que criam ou recriam outras paisagens.

Que cuida, altera a forma. Trata a terra, aduba, sei lá; Cicatriza.

Penso que cura. E ainda faço festa pros sentidos. Vejo cores. Sinto odores. E tateio, superfícies, mas como sempre, com profundidade.

Talvez seja isso.

Algo que cure.

Pra depois, seguir.

Advir.

Adjunto.

Disjuntor.

Camilo Lélis

Ator, itaguarense, com formação concluída no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Transita pela atuação, escrita e direção cênica. Atuou em diversos espetáculos, com experiência também no cinema e na TV. @camilo.lelis.oficial
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