Do rótulo de ‘vagabundo’ ao banco dos réus: os obstáculos de Eduardo Cunha para voltar ao Congresso
Projeto eleitoral do ex-presidente da Câmara depende de decisões do STF e enfrenta oposição até de possíveis companheiros de chapa em Minas Gerais

Luciano Meira
A tentativa de retorno do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG), à Câmara dos Deputados em 2026 voltou a enfrentar obstáculos judiciais no Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte retomou uma ação penal que ocorria no âmbito da Operação Lava Jato. No processo, o político e o então deputado Henrique Eduardo Alves são acusados de serem beneficiários de um esquema de recebimento de vantagens indevidas da empreiteira OAS em troca de favores no Congresso Nacional. O caso, que passou por diferentes instâncias ao longo dos últimos anos, retornou ao STF por decisão baseada no atual entendimento sobre foro por prerrogativa de função relacionado ao exercício do mandato parlamentar.
Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, o processo envolve suspeitas de recebimento de propina e movimentações financeiras no exterior. A ação também apura crimes eleitorais e lavagem de dinheiro.
A retomada do processo ocorre num momento em que Cunha tenta reconstruir sua carreira política após uma década marcada por cassação de mandato, prisão preventiva, condenações e sucessivas disputas judiciais. Em 2016, ele foi afastado da presidência da Câmara e posteriormente teve o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar. Nos anos seguintes, tornou-se um dos personagens centrais da Lava Jato. Embora algumas condenações tenham sido anuladas pelo STF por questões processuais e de competência, diversas investigações e ações penais continuaram tramitando.
Mas o processo criminal não é o único risco para o projeto eleitoral do ex-deputado. O STF também analisa a constitucionalidade das alterações promovidas pelo Congresso Nacional na Lei da Ficha Limpa, que reduziram, na prática, o período de inelegibilidade de políticos condenados ou cassados. A mudança foi aprovada em 2025 e abriu caminho para que diversos políticos voltassem a disputar eleições mais cedo.
O detalhe político mais sensível é que uma das principais articuladoras da mudança foi a deputada federal Dani Cunha (PL-RJ), filha de Eduardo Cunha. A proposta acabou beneficiando diretamente o pai, que passou a ter condições de planejar uma candidatura em 2026. No entanto, a norma agora corre o risco de ser derrubada pelo STF. Até a suspensão do julgamento por pedido de vista do ministro Gilmar Mendes, o placar estava em 2 votos a 0 pela inconstitucionalidade das mudanças, com votos da ministra Cármen Lúcia e do ministro Luiz Fux.
Caso a Corte derrube a flexibilização da Lei da Ficha Limpa, o retorno eleitoral de Cunha poderá ser novamente inviabilizado, independentemente do desfecho da ação penal retomada neste ano. O julgamento é acompanhado com atenção por partidos e pré-candidatos, já que poderá redefinir as condições de elegibilidade para as eleições de outubro.
Enquanto aguarda as decisões judiciais, Cunha busca consolidar uma candidatura por Minas Gerais, estado onde nunca construiu trajetória política relevante. A mudança de domicílio eleitoral é vista por adversários como uma tentativa de afastar sua imagem do Rio de Janeiro, onde sua carreira foi construída e onde o desgaste político permanece elevado desde os escândalos da Lava Jato. Nos bastidores, a estratégia também é interpretada como uma forma de evitar disputas internas que poderiam afetar a campanha de reeleição da filha, Dani Cunha, que pretende renovar seu mandato de deputada federal pelo Rio.
A tentativa de buscar um novo reduto eleitoral não é inédita. Em 2022, Cunha concorreu a deputado federal por São Paulo, mas não conseguiu se eleger. A derrota evidenciou as dificuldades de transferir capital político para estados onde não possui base consolidada nem histórico de atuação parlamentar. Agora, o ex-deputado tenta repetir a operação em Minas Gerais, apostando principalmente em agendas religiosas, eventos conservadores e aproximação com lideranças do interior do estado.
O plano, porém, enfrenta resistência dentro do próprio partido. O senador Cleitinho Azevedo, possível candidato ao governo mineiro e potencial cabeça de chapa do Republicanos em 2026, tornou pública sua rejeição ao ex-presidente da Câmara. Cleitinho afirmou que fará campanha contra Cunha e chegou a classificá-lo como “vagabundo”, expondo uma divisão incomum dentro da legenda.
A resistência não se limita ao senador. Lideranças políticas mineiras de diferentes campos ideológicos veem com desconfiança a tentativa de Cunha de construir uma candidatura em Minas. O argumento recorrente é que o ex-deputado procura um estado eleitoralmente viável após perder espaço em seus antigos redutos e carregar uma trajetória marcada por investigações e processos que ainda produzem efeitos políticos.
Para além das disputas partidárias, o caso simboliza um debate mais amplo sobre os limites da reabilitação política de figuras associadas aos maiores escândalos de corrupção da história recente do país. Mesmo após reverter condenações por questões processuais, Cunha continua vinculado a acusações graves e a processos que permanecem em tramitação. O avanço da ação penal no STF e o julgamento da Lei da Ficha Limpa colocam novamente sob escrutínio a possibilidade de retorno de um dos personagens mais controversos, para dizer o mínimo, da política brasileira contemporânea.