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Entre a lealdade e o projeto próprio: a história dos vices que se afastaram de seus padrinhos políticos

Declaração de Mateus Simões sobre candidatura presidencial de Romeu Zema remete a episódios em que vice-presidentes, vice-governadores e sucessores naturais desenvolveram interesses distintos dos líderes que os conduziram ao poder

Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) – Foto: Arquivo RMC

Luciano Meira

A admissão feita pelo governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), de que seria eleitoralmente mais vantajoso para sua candidatura à reeleição que Romeu Zema (Novo) permanecesse fora da disputa presidencial de 2026 expôs uma tensão clássica da política brasileira: o momento em que sucessores e vices passam a ter projetos próprios, nem sempre alinhados aos planos dos líderes que os impulsionaram.

Em entrevista ao programa Café com Política, de O Tempo, Simões afirmou que sua situação eleitoral seria mais confortável caso Zema permanecesse concentrado na política mineira. “Seria muito mais conveniente para mim que Zema não fosse candidato ou que fosse candidato a vice de Flávio. Mas eu jamais poderia pedir isso para ele”, declarou.

Na mesma entrevista, o governador procurou afastar qualquer interpretação de conflito com o ex-governador. “Eu estaria subvertendo quem foi leal comigo. Estaria colocando meu interesse à frente daquele que foi quem me convidou para vir para o governo, que foi quem me convidou para ser vice-governador e me escolheu para ser sucessor. Eu acho que ter lealdade diz muito sobre o caráter”, afirmou.

A declaração ocorre em um contexto delicado para o grupo político de Zema. Enquanto o ex-governador busca consolidar sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, Simões tenta viabilizar a própria eleição em Minas Gerais. A presença de Zema no estado durante a campanha poderia fortalecer a transferência de votos para seu sucessor, além de facilitar articulações partidárias locais.

O governador reconheceu explicitamente esse cálculo político. “Para Minas Gerais, a eleição estaria resolvida. Não teríamos nem segundo turno. Mas eu não posso fazer um movimento desse. Respeito”, disse.

Embora a relação entre os dois permaneça publicamente alinhada, a situação remete a episódios históricos em que vices ou sucessores deixaram de atuar apenas como auxiliares para se transformar em polos autônomos de poder.

O caso mais emblemático envolve Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB). Eleitos juntos em 2010 e reeleitos em 2014, os dois chegaram ao segundo mandato em meio à crise econômica e política. O PMDB rompeu com o governo, Temer tornou-se uma das principais lideranças do movimento favorável ao impeachment e assumiu a Presidência após a destituição de Dilma, em 2016.

Outro episódio marcante ocorreu durante o governo Fernando Collor. O vice-presidente Itamar Franco distanciou-se politicamente do presidente à medida que avançavam as denúncias de corrupção. Quando Collor perdeu sustentação e foi afastado, Itamar assumiu o comando do país e imprimiu uma agenda própria ao governo.

Em Minas Gerais, um dos exemplos mais conhecidos ocorreu entre o ex-governador Fernando Pimentel (PT) e seu vice, Antonio Andrade (PMDB). Eleitos em 2014, os dois terminaram em campos opostos após o rompimento nacional entre PT e PMDB. Andrade passou a integrar o grupo político que abandonou a sustentação ao governo petista.

A política mineira também oferece exemplos de sucessões sem conflitos. Aécio Neves e Antonio Anastasia mantiveram alinhamento político durante a transferência de poder em 2010. Em Belo Horizonte, Fuad Noman assumiu a prefeitura após a saída de Alexandre Kalil para disputar o governo estadual e, embora tenha construído trajetória própria, não houve rompimento formal entre os dois.

A fala de Mateus Simões, portanto, não se enquadra nos casos clássicos de ruptura. Ao contrário, o governador reconhece publicamente que seus interesses eleitorais não são idênticos aos de Zema, mas procura demonstrar que a relação permanece subordinada à lealdade política.

Ainda assim, a história mostra que é justamente quando surgem projetos eleitorais próprios que começam os testes mais difíceis para alianças construídas no exercício do poder. Em alguns casos, eles resultam em rompimentos históricos. Em outros, permanecem administrados em nome da unidade política e eleitoral.

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