Festa do Rosário em Itaguara celebra tradição secular e resistência cultural dos negros mineiros
Evento, que ocorre de 15 a 19 de agosto, mantém viva a devoção e identidade das comunidades negras históricas. Nossa Senhora do Rosário é símbolo de fé, solidariedade e resistência contra a opressão dos tempos da escravidão, elemento central do congado mineiro

Luciano Meira
A tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário, um dos principais eventos culturais de Itaguara, em Minas Gerais, terá nova edição entre os dias 15 e 19 de agosto. Realizada anualmente, a celebração é marcada por missas, procissões e, sobretudo, pelas danças e cortejos de congadeiros, representando um legado transmitido de geração em geração. O evento, além de mobilizar fiéis e manter acesa a chama da fé, reafirma a importância de Nossa Senhora do Rosário para as comunidades negras da cidade e da região.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros escravizados e seus descendentes, tem raízes profundas na história brasileira. Durante a escravidão, as Irmandades do Rosário dos Homens Pretos serviram como espaços de acolhimento, solidariedade e organização para africanos livres, cativos e seus descendentes. Por meio dessas irmandades, comunidades negras encontraram formas alternativas de resistência e expressão cultural, sem o confronto direto com a elite dominante. As festas do Rosário, especialmente, representavam momentos de liberdade, onde antigos escravos podiam eleger reis e rainhas simbolicamente e negociar novos papéis sociais, invertendo temporariamente as hierarquias impostas pela escravidão.
Além do aspecto religioso, a festa é palco para o reencontro de expressões musicais e danças de matriz africana, como as congadas e moçambiques, integrando a fé católica e a herança cultural africana. Nas palavras de estudiosos, a devoção à santa tornou-se símbolo do “doce catolicismo lírico” das irmandades negras: um suspiro de liberdade em meio à vida de escravidão, atravessando os séculos como marca de solidariedade e construção de identidade coletiva.
Essas manifestações, tradicionalmente realizadas por descendentes de escravizados, hoje dialogam com toda a comunidade, resgatando valores de resistência e pertencimento. A Festa do Rosário em Itaguara é mais do que uma celebração religiosa — é um marco da luta de um povo por dignidade e memória, tendo Nossa Senhora do Rosário como símbolo de proteção e esperança.
Segundo o prefeito Luan (PL), ao prestigiar e valorizar esse evento, a prefeitura e a população mantém viva uma das manifestações populares mais autênticas de Minas Gerais, reafirmando a centralidade da festa no calendário local e seu papel na promoção da cultura, fé e respeito à história dos negros no Brasil.
Entrevistamos a Rainha Conga Adriana Penido que nos recebeu e falou sobre a festa.

O Metropolitano – Você foi proclamada rainha em 2025, portanto este é o primeiro ano que está participando da Festa nesta posição. O que isto representa para você e para a comunidade?
Adriana Penido – Ser proclamada rainha em 2025 e vivenciar este primeiro ano é uma honra imensa e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade. Ainda mais em um ano que o Reinado ganhou grande notoriedade por se tornar Patrimônio Cultural Imaterial.
Representa para mim, a continuidade de uma tradição que vai muito além da devoção religiosa, é um ato de resistência, de valorização da nossa ancestralidade e da força do nosso povo. Para mim, é uma oportunidade de representar minha comunidade com amor, fé e orgulho. Para a comunidade, acredito que é uma forma de manter viva a cultura afro-brasileira e a história daqueles que nos antecederam, celebrando com alegria, união e respeito nossas raízes. A fé que canta e dança representa além daquilo que nossos olhos conseguem ver.
O Metropolitano – Falar de resistência para negros e seus descendentes é algo que se tornou, em certa medida, uma obrigação mas que nem sempre soa como autêntico ou é feito de forma concreta. Você acredita que festas como esta são a expressão mais forte dessa resistência, lutando ainda hoje onde, desde sempre, o lugar de fala não era dos negros?
Adriana Penido – Sim, acredito que festas como a de Nossa Senhora do Rosário são uma das formas mais autênticas e concretas de resistência. Elas carregam séculos de memória, luta e fé do povo negro, muitas vezes silenciado pela história oficial. Essas celebrações são espaços onde o protagonismo negro é visível, respeitado e celebrado. São momentos em que podemos dizer, com orgulho, que o povo negro está aqui, que resistiu, e que continua construindo sua identidade com força e dignidade. É nesse contexto que a resistência se transforma em expressão cultural, espiritual e até mesmo política. Nessa festa todos se tornam um, com uma única missão de expressar a fé e honrar a ancestralidade.
O Metropolitano – Qual a mensagem que a Festa de Nossa Senhora do Rosário em Itaguara passa para a comunidade?
Adriana Penido – A festa transmite uma mensagem de fé, união e pertencimento. Ela nos lembra que somos parte de uma história rica, que tem raízes profundas na fé e na resistência do povo negro. É uma celebração que acolhe a todos, mas que também nos chama à responsabilidade de preservar e valorizar essa herança. É um momento de agradecer, de renovar a esperança guiados pela força de Nossa Senhora do Rosário e pelo amor à nossa comunidade. É uma festa tradicional que vem passando de geração em geração na nossa cidade, uma festa linda que chama a todos pra celebrar o Rosário de Maria. Convidamos a todos pra nossa festa, que vai ser linda e abençoada.
Programação:
Sexta-feira – 15/08 -19h
Saída do Quartel General para Capela, em seguida hasteamento das bandeiras
Sábado -16/08 – 19h
Chegada das coroas para cumprimento de promessas
Domingo – 17/08 – 12h
Almoço oferecido pelos Reis à todas as Guardas
Segunda-feira – 18/08 – 19h
Cumprimento das Promessas
Terça-feira – 19/08 – 21h
Encerramento do cumprimento das promessas