Governadores se reúnem em Brasília para discutir tarifaço, mas priorizam articulação política à mitigação de crises
Encontro de chefes estaduais na casa de Ibaneis Rocha expõe foco em pautas bolsonaristas e negligência frente ao impacto do tarifaço

Luciano Meira
Em Brasília, governadores de estados do campo conservador reuniram-se na residência oficial de Ibaneis Rocha (MDB, Distrito Federal) para debater o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil e, mais ainda, tentar alinhar discursos em torno de pautas como a anistia aos golpistas do 8 de janeiro e o fortalecimento do bloco bolsonarista. À revelia do que o momento exige, a maior parte dos presentes deixou em segundo plano discussões sobre como amenizar o impacto econômico do aumento das tarifas para suas populações, priorizando articulações políticas que pouco dialogam com as urgências dos estados que comandam.
Na reunião, que contou com nomes como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO), Jorginho Mello (SC) e Wilson Lima (AM), a cena política nacional parecia pesar mais que a busca de soluções reais para o tarifaço. Com Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, chegou a pautar-se a defesa da anistia aos condenados pelos atentados golpistas de 2023, movimento que alia chefes estaduais da direita à manutenção do projeto bolsonarista no país.Enquanto Tarcísio aparece como único nome do grupo com algum peso eleitoral significativo para o futuro — liderando intenções de voto e mantendo índices de aprovação em alta em São Paulo —, os demais presentes são, em grande parte, meros coadjuvantes em suas regiões e na política nacional atual, orbitando projetos federais de pouca densidade.
O caso de Romeu Zema, de Minas Gerais, merece menção crítica. Em vez de enfrentar os problemas estruturais de seu estado — que vão de uma dívida pública explosiva, atestada pelo crescimento de mais de 45% nos últimos anos e gestão confusa sobre o pagamento dos débitos, à precarização dos serviços públicos de educação e segurança, passando ainda por renúncias fiscais que subtraíram bilhões dos cofres estaduais e pelo congelamento de salários do funcionalismo — Zema tem se ocupado sobretudo em movimentos para alavancar sua candidatura presidencial. O governador não apenas terceiriza responsabilidades (lançando mão de acusações ao governo Lula pelo tarifaço e ocultando o papel da gestão Bolsonaro e da Casa Branca na gênese do problema), como também recorre sistematicamente à retórica de “estado nos trilhos” enquanto a população mineira assiste à deterioração de indicadores sociais e à expansão da dívida.
É sintomático que, diante de uma crise econômica potencialmente devastadora, governadores à direita escolham investir tempo e energia na “politicagem” — como dito nos corredores do próprio encontro — e comprem discursos que defendem a anistia de criminosos que atentaram contra a democracia. Ao priorizarem a construção de uma frente conservadora com vistas às eleições de 2026 e a proteção política de Jair Bolsonaro, os chefes estaduais deixam evidente que, para muitos deles, o que está em jogo não são as soluções para os efeitos do tarifaço — esses seguem sem plano consistente —, mas sim a sobrevivência de seus próprios projetos de poder e impunidade para aliados.
O Brasil profundo, nesse arranjo, segue sem respostas para os problemas do presente. E os governadores, salvo raras exceções, cada vez mais distantes do país real.