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Grupo Madero acumula 193 autuações por violações trabalhistas em Minas Gerais

Relatório aponta recrutamento predatório, discriminação, jornadas exaustivas e violações graves; empresa é reincidente e alvo de centenas de processos

Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

Auditores-fiscais do trabalho de Minas Gerais autuaram o Grupo Madero, rede nacional de restaurantes, por 193 infrações trabalhistas após uma megaoperação que inspecionou 12 unidades e 5 alojamentos em Belo Horizonte entre março e julho. O levantamento aponta práticas sistemáticas de exploração, discriminação e precarização das condições de trabalho, em um dos maiores processos administrativos já abertos contra uma empresa do setor no país.

Modelo de gestão baseado na vulnerabilidade e no controle extremo

A inspeção revela que o Madero centraliza seu recrutamento em jovens de 18 a 25 anos oriundos das regiões Norte e Nordeste, enviados para trabalhar em lojas distantes de suas cidades e mantidos em alojamentos coletivos sob rígida vigilância. 83,4% dos funcionários da rede em BH são migrantes, frequentemente privados de contato com a família e sem assistência adequada.Jovens relataram que viajavam dias para trabalhar sem registro formal, ficando desamparados pela legislação até a contratação efetiva. Além disso, a empresa não paga vale-transporte sob a justificativa dos alojamentos serem próximos do trabalho, mas foi constatado que vários trabalhadores eram obrigados a caminhar até 40 minutos à noite por áreas inseguras, sem qualquer apoio.

Discriminação, ilegalidades em seleções e jornadas abusivas

Editais de contratação do Madero especificavam faixa etária máxima, além de questionários sobre estado civil e filhos — práticas vedadas pela legislação brasileira. Os empregados, ao serem admitidos, confrontavam jornadas do tipo 6×1 com longos intervalos intrajornada sem liberdade efetiva, escalas alteradas sem aviso e exigência de tarefas de limpeza em dias de folga sem remuneração adicional, típica de assédio moral organizacional.

O ambiente nos alojamentos, segundo os auditores, incluía proibição de visitas, até mesmo de parentes, e punições rigorosas. Funcionários afirmaram sentir-se “aprisionados” e totalmente disponíveis para as demandas da empresa, sem tempo para estudo, lazer ou descanso.

Multas, consequências e histórico de reincidência

As autuações podem render à empresa multas superiores a R$ 3,4 milhões, com processos encaminhados ao Ministério Público do Trabalho, MPF, MPE, sindicatos e Secretaria de Inspeção do Trabalho. O modelo foi classificado como um atentado contra direitos fundamentais, agravando a vulnerabilidade dos jovens e desrespeitando princípios constitucionais do trabalho decente.

O histórico do Grupo Madero é ainda mais grave: a empresa é ré em centenas de ações trabalhistas em diferentes estados, com relatos de jornadas abusivas, dispensa discriminatória de gestantes ou mães recentes e constante exposição a riscos ocupacionais. Ex-funcionários relatam que trabalhar doentes era comum e que denúncias de assédio eram simplesmente ignoradas ou punidas internamente, em flagrante desrespeito à legislação.

Nota e postura do Grupo Madero

Em nota, o Grupo Madero afirma investir na capacitação de jovens, alimentação balanceada e acompanhamento das equipes, além de manter diálogo aberto com autoridades e supostamente promover melhorias contínuas. Entretanto, as reincidências, o número de processos e o padrão de violações descrito por vítimas e auditores revelam uma cultura empresarial marcada pela exploração do trabalho juvenil e pela ampla negligência com os direitos humanos e trabalhistas mais básicos.

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