Isolado e com baixa intenção de voto, Simões assume Minas em tom de confronto

Novo governador herda passivo de desonerações fiscais e aposta em ataques institucionais para viabilizar candidatura

Governador Mateus Simões (PSD-MG) – Foto: Guilherme Bergamini/ALMG
Luciano Meira

O vice-governador Mateus Simões (PSD) assumiu o comando de Minas Gerais neste domingo (22), após a renúncia de Romeu Zema (Novo), que iniciou pré-campanha à Presidência. A transmissão do cargo ocorreu em cerimônia na Assembleia Legislativa (ALMG), marcada pela ausência de lideranças nacionais e de expoentes do primeiro escalão da política mineira. Simões assume o Palácio Tiradentes com a intenção declarada de disputar a sucessão em 2026, embora as pesquisas de opinião indiquem desempenho marginal.

Os levantamentos mais recentes de institutos como Quaest e Real Time Big Data situam Simões com índices que variam entre 4% e 9% das intenções de voto. O novo governador aparece distante dos líderes na corrida eleitoral, como o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT). Mesmo com o controle da máquina pública pelos próximos nove meses, Simões enfrenta resistência dentro da própria base aliada, que demonstra sinais de fragmentação diante de sua baixa viabilidade eleitoral.A postura do novo chefe do Executivo tem sido pautada pelo confronto direto com instituições e adversários. Recentemente, Simões utilizou canais oficiais e entrevistas para dirigir críticas ao Poder Judiciário e ao governo federal. Em declarações públicas, ele afirmou que manteria o programa de escolas cívico-militares em Minas Gerais independentemente de decisões judiciais contrárias. “Não vou me acovardar diante de decisão judicial”, declarou o político em entrevista recente, adotando um tom beligerante que destoa da tradição de conciliação do estado.

No campo legislativo, a relação de Simões com a Assembleia é conturbada por episódios de ataques a parlamentares, inclusive da base de apoio. O governador é acusado por deputados de utilizar “bravatas” nos microfones para mascarar a falta de articulação política. Críticos apontam que essa estratégia busca compensar o desconhecimento do eleitorado, mas o efeito tem sido o esvaziamento de seus eventos oficiais. A posse de domingo foi descrita por interlocutores como um ato protocolar, prestigiado majoritariamente por secretários e aliados obrigados pelo cargo.

Um dos pontos mais sensíveis da gestão herdada por Simões é o sigilo sobre as desonerações fiscais concedidas a empresas. Embora tenha prometido transparência absoluta durante o período em que foi secretário-geral e vice, o governo estadual mantém sob segredo a lista de beneficiários de renúncias que somam bilhões de reais. Sindicatos e órgãos de controle criticam a “caixa-preta” tributária, que contrasta com o discurso de austeridade e moralidade administrativa propagado pelo grupo político de Zema e Simões.

O impacto econômico dessa falta de transparência reflete-se na dificuldade de Minas Gerais em renegociar sua dívida com a União. Simões tem culpado o governo federal pelo impasse no Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mas evita detalhar as contrapartidas oferecidas pelo estado. A retórica de “confronto contra Brasília” serve como peça de marketing eleitoral, porém especialistas alertam que o isolamento político pode prejudicar o envio de recursos federais para áreas essenciais, como saúde e infraestrutura.

Politicamente, a passagem de Simões pelo governo tem prazo de validade definido pelo calendário eleitoral de outubro. Sem um plano de governo que dialogue com as prioridades apontadas pela população —como saúde e geração de emprego—, o governador aposta na polarização ideológica para subir nas pesquisas. Entretanto, o racha na direita mineira e a ascensão de nomes com maior apelo popular sugerem que a arrogância no trato com aliados pode ser o principal obstáculo para sua sobrevivência política após 2026.

A análise do cenário indica que Simões comanda um governo de transição enfraquecido pela falta de votos e pelo distanciamento da realidade das urnas. Socialmente, a manutenção de sigilos fiscais em um estado em crise financeira gera desconfiança sobre a real face da gestão. Politicamente, ao atacar o Judiciário e o Legislativo, o governador sacrifica a governabilidade em nome de uma candidatura que, até o momento, carece de base social e apoio partidário sólido.

O Metropolitano

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