Isso, isso, isso: sem querer querendo SBT troca especial de Zezé di Camargo pelo inédito Fim de ano do Chaves
Após ataques do sertanejo à emissora e à família Abravanel, canal engaveta programa de Natal e transforma tombo do cantor em vitrine de nostalgia mexicana

Luciano Meira
O SBT decidiu cancelar o especial de fim de ano “Natal é Amor”, de Zezé Di Camargo, já gravado e anunciado para a noite de 17 de dezembro, e preencher o horário com um episódio inédito de “Chaves” na TV aberta brasileira. A mudança de programação foi anunciada depois da forte repercussão negativa de declarações do cantor, que atacou publicamente a emissora, criticou a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no lançamento do SBT News e chegou a acusar as filhas de Silvio Santos de “prostituírem” o canal.
Como foi a virada na grade
O especial de Zezé Di Camargo iria ao ar logo após o Programa do Ratinho, com repertório natalino e convidados, em uma tentativa de recuperar a tradição de musicais de fim de ano do SBT. Depois da crise, a emissora escalou às pressas o especial “Fim de Ano do Chaves”, anunciado nas chamadas como “um episódio nunca exibido na TV aberta” para “presentear” o público neste Natal.
Nas redes sociais, a substituição virou motivo de deboche: internautas celebraram a troca do cantor por Chaves, apontando que o humor mexicano – mesmo requentado – seria “presente melhor” que um especial estrelado por quem despreza a própria casa que o contratou. Ao anunciar a decisão, o SBT tratou o episódio como resposta ao público, em tom de fan service, evitando citar diretamente o sertanejo e esvaziando o peso de sua presença na grade.
A polêmica que derrubou o especial
O estopim da crise foi um vídeo em que Zezé Di Camargo, visivelmente irritado, criticou a direção do SBT e a participação de Lula e de ministros no evento de lançamento do canal de notícias SBT News, realizado dias antes em São Paulo. No desabafo, o cantor afirmou que as herdeiras de Silvio Santos estariam “prostituindo” a emissora ao se aproximar do governo federal, discurso que se somou ao histórico de declarações políticas controversas do artista.
Diante da repercussão, a presidente do SBT, Daniela Beyruti, exigiu uma retratação pública de Zezé, que se recusou e pediu ele próprio que o especial não fosse ao ar; a emissora atendeu, cancelou a exibição e ainda avalia processar o sertanejo por danos à imagem. A postura do cantor, que transformou uma parceria comercial em palanque ideológico, foi lida nos bastidores como um ato de ingratidão e de desrespeito à história de uma emissora que, ao contrário dele, sempre conviveu com diferentes governos sem romper com a democracia.
O passado autoritário que volta à tona
A crise reacendeu declarações de 2017, quando Zezé Di Camargo afirmou em entrevista que o Brasil não viveu uma ditadura, mas um “militarismo vigiado”, relativizando prisões, torturas e mortes ocorridas no regime de 1964. O mesmo artista que hoje se apresenta como guardião da liberdade já flertou abertamente com a ideia de uma nova “intervenção militar para reorganizar o país”, discurso que o coloca na contramão de movimentos culturais e democráticos que repudiam qualquer saudade de regimes autoritários.
Ao atacar o SBT por receber um presidente eleito e defender, em outras ocasiões, soluções de força para a política, Zezé expõe um paradoxo: proclama amor à democracia enquanto nega a ditadura que a antecedeu e tenta ditar à emissora quais autoridades podem ou não cruzar seus estúdios. Não por acaso, parte do público enxergou na decisão do canal não apenas um gesto de autoproteção de marca, mas um recado de que quem se vale da mídia para espalhar revisionismo histórico e insultos gratuitos pode, sim, acabar fora do ar.
Chaves como antídoto e símbolo
Ao recorrer a “Chaves”, o SBT acionou um de seus patrimônios afetivos mais sólidos, capaz de unir gerações, manter audiência razoável e, de quebra, apagar o constrangimento de ter preparado um especial para quem resolveu cuspir no prato em plena semana de Natal. Em vez de um show contaminado por ressentimentos políticos, a emissora aposta na nostalgia de uma vila onde o conflito máximo é o sanduíche de presunto roubado, não um cantor revoltado por ver um presidente em festa de lançamento.
O episódio inédito de “Chaves” ainda funciona, simbolicamente, como contraponto ao estrelismo de Zezé: um produto simples, de humor modesto, que há décadas conquista público sem precisar de bravatas, revisionismo sobre a ditadura ou ataques à empresa que o exibe. Num cenário em que artistas tentam monetizar polarização, a escolha do SBT soa menos como improviso e mais como um recado bem-humorado: se é para celebrar o fim de ano, melhor ficar com a vila do que com quem confunde liberdade de expressão com licença para agredir e distorcer a história.
