Justiça italiana mantém prisão de Carla Zambelli até decisão sobre extradição
Deputada segue detida enquanto tramita pedido do Brasil; caso levanta debate sobre dupla cidadania, fuga internacional e novos processos

Luciano Meira
A Justiça italiana decidiu manter a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) presa até a conclusão do processo de extradição solicitado pelo governo brasileiro. Condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 10 anos de prisão por invasão hacker ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Zambelli foi detida em Roma após dois meses foragida, numa saga marcada por apelos políticos, tentativas de asilo e crescente pressão entre os sistemas judiciais do Brasil e da Itália.Em maio de 2025, após ser considerada a mandante intelectual do ataque hacker junto ao ex-hacker Walter Delgatti — cuja missão era emitir um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes —, Zambelli foi condenada pelo STF a 10 anos de prisão, além do pagamento de R$2 milhões em danos coletivos. A sentença determinava regime fechado e a perda do mandato parlamentar. Duas semanas depois, a deputada deixou o país via fronteira terrestre rumo à Argentina e dali seguiu para os Estados Unidos até chegar à Itália, onde tem cidadania.
Ao longo do tempo em que esteve escondida na Itália, Zambelli se declarou vítima de perseguição política, publicou vídeos denunciando o que chamou de ataque à democracia brasileira e agradeceu aliados, como o senador Flávio Bolsonaro, por apoio. Em suas declarações públicas, a deputada afirmou que buscava asilo político e declarou-se “exilada”, dizendo confiar na Justiça italiana, que, segundo ela, seria “justa e democrática”; também alegou problemas de saúde e afirmou temer pelas condições das prisões brasileiras.
A captura em Roma ocorreu após o deputado italiano Angelo Bonelli informar o endereço onde Zambelli se escondia. A Polícia Federal brasileira destacou que a detenção — fruto de cooperação com a Interpol e autoridades italianas — seguiu o pedido formal de extradição enviado pelo ministro Alexandre de Moraes em junho. O caso da deputada ilustra que a dupla cidadania não impede a extradição no contexto de tratados bilaterais: a Itália pode extraditar seus cidadãos caso o crime também exista em seu Código Penal. Os delitos de invasão de sistema informático e falsidade ideológica, que fundamentaram a condenação no Brasil, também têm equivalência na lei italiana, o que fortalece a possibilidade de extradição.
O processo de extradição segue os trâmites legais na Justiça italiana, podendo se estender por mais de um ano. Neste período, Zambelli permanecerá detida no presídio feminino de Rebibbia, em Roma, em meio a avaliações sobre possíveis medidas alternativas, como prisão domiciliar, caso a Justiça italiana assim decida em fases posteriores. A defesa da parlamentar já manifestou à imprensa italiana que o objetivo é evitar o retorno ao Brasil e, se possível, garantir a permanência na Itália.
Além do risco de extradição, Zambelli responde na Itália a uma investigação paralela sobre falsificação de documentos apresentados para tentar obter o status de refugiada — o que, caso seja comprovado, pode agravar sua situação legal e ampliar a pena imposta. O Brasil, por sua vez, comprometeu-se formalmente a não impor pena perpétua, não agravar a sanção por motivações políticas e a garantir tratamento digno à ex-parlamentar em caso de extradição.
O caso, que continua a mobilizar autoridades e setor político dos dois países, tende a se desdobrar nos próximos meses como mais um emblemático capítulo das tensões entre justiça, política e cooperação internacional nas Américas.