Lula alerta na Índia: poucos controlam algoritmos da IA, não é inovação, é dominação
Em cúpula em Nova Délhi, presidente defende governança multilateral da tecnologia, regulamentação de big techs, além de agendas paralelas com líderes mundiais

Luciano Meira
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quinta-feira (19), em Nova Délhi, uma governança global multilateral da inteligência artificial (IA), alertando que o controle de algoritmos por poucas empresas não representa inovação, mas dominação, e pode aprofundar desigualdades históricas e fragilizar democracias. Participando da Cúpula sobre o Impacto da IA, primeira vez que um presidente brasileiro marca presença em evento global de alto nível sobre o tema, Lula destacou os riscos de práticas nefastas como desinformação, discursos de ódio e armas autônomas.
Discurso na Cúpula: inovação dual e urgência humana
Lula enfatizou que a Quarta Revolução Industrial avança rápido enquanto o multilateralismo recua, tornando a governança da IA estratégica para reconhecer trajetórias nacionais diversas e fortalecer soberania. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, 2,6 bilhões de pessoas seguem desconectadas do mundo digital, o que exige priorizar o ser humano no centro das decisões para evitar que a tecnologia defina quem participa ou fica à margem.
O presidente citou o caráter dual da IA, que impulsiona produtividade em indústrias, saúde e serviços públicos, mas pode fomentar pornografia infantil, feminicídio, precarização do trabalho e conteúdos falsos que distorcem eleições. “Os algoritmos não são apenas códigos matemáticos, mas parte de uma estrutura de poder”, afirmou, criticando a concentração excessiva de capacidades computacionais e dados em poucos conglomerados sem contrapartida em valor local.
Crítica às big techs e plano brasileiro de IA
Lula defendeu a regulamentação das big techs para salvaguardar direitos humanos digitais, integridade da informação e indústrias criativas, repudiando modelos baseados em exploração de dados pessoais e radicalização política. Capacidades e infraestrutura concentram-se em poucos países, apropriando dados de nações em desenvolvimento sem gerar renda equivalente.
No Brasil, o governo lançou em 2025 o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, visando serviços públicos ágeis e geração de emprego, além de atrair investimentos em centros de dados e marco regulatório nacional. Lula mencionou iniciativas como a proposta chinesa de organização internacional para países em desenvolvimento e a Parceria Global em IA do G7.
Contexto da cúpula e relações Brasil-Índia
A Cúpula em Nova Délhi é o quarto encontro do Processo de Bletchley, iniciado no Reino Unido em 2023 e seguido por eventos em Seul e Paris, reunindo líderes para debater segurança e governança da IA. Lula, ao lado de chefes de Estado e executivos como o CEO do Google, reforça o protagonismo brasileiro no tema.
A viagem, segunda de Lula à Índia no mandato atual e quinta no total, eleva o comércio bilateral a US$ 15 bilhões em 2025 (+25,5%), com meta de US$ 20 bilhões até 2030 e negociações para ampliar o acordo Mercosul-Índia. A agenda inclui reunião com o premiê Narendra Modi para discutir comércio, minerais críticos, vistos estendidos a 10 anos e pilares como transformação digital e segurança alimentar.
Principais pontos do discurso de Lula
Governança multilateral inclusiva para evitar desigualdades
Riscos da IA: desinformação, ódio, armas autônomas
Regulamentação de big techs contra dominação digital
Plano Brasileiro de IA (2025) para emprego e serviços públicos
2,6 bi de pessoas desconectadas demandam ação urgente
Após a cúpula, Lula organiza evento “IA para o bem de todos” e cumpre agenda bilateral, trocando visões sobre multilateralismo, ONU e paz global.
Lula têm reuniões bilaterais nesta quinta (19) à margem da cúpula de IA; Macron solicitou encontro como Eslováquia, Sérvia e Croácia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta quinta-feira (19), em Nova Délhi, com o presidente francês Emmanuel Macron, em encontro bilateral solicitado formalmente pelo líder europeu à margem da Cúpula Global sobre Inteligência Artificial. A conversa, acertada em telefonema recente e ajustada por diplomatas, ocorre em meio a múltiplos pedidos de reuniões recebidos pelo Itamaraty, seguindo o padrão de agendas lotadas em fóruns internacionais com chefes de Estado.
Solicitação de Macron e pauta ampla da reunião
Macron pediu o encontro por meio da Embaixada da França em Brasília, com foco em retomar parcerias desde sua visita ao Brasil em março de 2024, incluindo comércio, tecnologia e governança global. A pauta abrange o acordo Mercosul-União Europeia, em fase final de ratificação apesar de resistências francesas, a proposta do presidente Donald Trump para um Conselho da Paz, reforma da ONU e impactos da IA.
Tanto Macron quanto Lula foram convidados para o conselho proposto por Trump, mas o francês já recusou participação, priorizando a ONU, enquanto o Brasil avalia posição. O encontro reforça a excelente relação bilateral, com Macron vendo Lula como influente em mediações como Ucrânia-Rússia.
Série de bilaterais: Macron não é exceção na agenda
O pedido de Macron se soma a outros recebidos à margem da cúpula e da visita de Estado à Índia, como os presidentes da Eslováquia (Peter Pellegrini), Sérvia (Aleksandar Vučić) e Croácia, além de CEO do Google e presidente do Sri Lanka. Lula já conversou com o croata e o cingalês nesta quinta, ilustrando o formato padrão de encontros rápidos em eventos multilaterais.
A agenda brasileira na Índia inclui atos com o premiê Narendra Modi, como memorando sobre minerais críticos, elevando o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030. Reuniões bilaterais assim são rotina em viagens de Lula, como a COP30 em Belém (novembro de 2025), com Macron, ou visitas à França em junho de 2025.
Principais temas na pauta Lula-Macron
Mercosul-UE Ratificação apesar de objeções francesas
Conselho da Paz Recusa francesa; Brasil avalia
IA e tecnologia Governança global à margem da cúpula
Ucrânia Influência brasileira em mediação
Comércio bilateral Parcerias em energia e digital
O encontro consolida o diálogo Brasil-França, com expectativa de acordos técnicos no primeiro semestre de 2026, em meio a negociações globais sobre paz, comércio e IA. Lula segue agenda indiana até domingo (22), priorizando soberania digital e parcerias Sul-Sul.
