Mãe e filha pegam 12 anos de prisão por racismo com bananas a crianças negras

Sentença exemplar repreende racismo praticado por influenciadoras digitais; vídeo chocou o país em 2023 ao expor crianças negras a humilhação pública para fins de entretenimento

Reprodução Redes Sociais – Arte RMC
Luciano Meira

A Justiça do Rio de Janeiro condenou, nesta semana, as influenciadoras digitais Nancy Gonçalves Cunha Ferreira e Kerollen Vitória Cunha Ferreira, mãe e filha, a 12 anos de prisão em regime fechado por crime de injúria racial. Em 2023, as duas publicaram um vídeo no qual distribuem bananas e um macaco de pelúcia a crianças negras em São Gonçalo, na Região Metropolitana, fato amplamente divulgado nas redes sociais e que rapidamente mobilizou a sociedade brasileira contra mais um caso explícito de racismo recreativo.

O episódio, que resultou ainda em multa de R$20 mil para cada vítima, chocou ao evidenciar o racismo direcionado a menores de idade. No vídeo, Nancy e Kerollen se aproximavam de duas crianças negras — uma de 10 anos e outra de 9 — e, em tom de deboche, presenteavam-nas com uma banana e um macaco de pelúcia. Os revezes, associados historicamente a estereótipos racistas, foram entregues junto a falas de aparente diversão, configurando, segundo a decisão judicial, a tentativa de “monetizar a dor” das vítimas para entretenimento virtual.A repercussão foi imediata: após a veiculação, as imagens circularam por diferentes plataformas e provocaram indignação nacional. As vítimas, que já estavam em situação de vulnerabilidade social, passaram a ser alvo de bullying e isolamento nas escolas, escancarando as consequências psicossociais desses atos abjetos. Houve um volume expressivo de denúncias à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, e organizações de direitos humanos classificaram o episódio como uma grave violação à dignidade de crianças negras, ressaltando que racismo recreativo é crime e jamais diversão.

As investigações mostraram que mãe e filha utilizavam as próprias redes — que somavam mais de 12 milhões de seguidores à época — para produzir abordagens “humorísticas” com crianças em espaços públicos, selecionando as vítimas de forma supostamente aleatória. A defesa argumentou que não houve intenção discriminatória, versão rechaçada pela magistrada responsável que, em decisão contundente, frisou: “As rés animalizaram as crianças e tiraram proveito financeiro e social de conteúdo escancaradamente racista, prática inadmissível sob qualquer pretexto”.

O caso tornou-se emblemático da luta por responsabilização do racismo no Brasil, país ainda marcado pelo colonialismo e pelo preconceito arraigado. Nancy e Kerollen recorrerão em liberdade, mas estão proibidas pela Justiça de publicar conteúdo do tipo ou de manter contato com as vítimas.

As imagens da ocasião, assim como registros das rés, circularam nas redes sociais e em reportagens de todo o país, servindo como alerta para o fato de que o racismo, mesmo disfarçado de “brincadeira”, causa traumas profundos e não será tolerado.

Racismo é crime. E, agora, a Justiça reafirmou: é também inadmissível sob qualquer pretexto.

O Metropolitano

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