Maestra pioneira é demitida após criticar salários na Sinfônica de MG
Única mulher em 50 anos a reger o grupo é punida pela gestão Zema que ignora cultura

Luciano Meira
A maestra Ligia Amadio, única mulher a comandar a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG) em seus 50 anos de história, foi demitida pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), ligada ao governo de Romeu Zema (Novo), logo após denunciar publicamente os salários aviltantes dos músicos, equivalentes a R$ 66 por dia para profissionais com 20 anos de estudo. A decisão, anunciada para 2026 sob pretexto de convidar “regentes de renome nacional”, soa como retaliação descarada contra quem ousou expor a “cegueira” do Estado para com seu patrimônio cultural, em audiência na ALMG em novembro de 2025. O Sindicato dos Músicos repudiou o ato, destacando o consenso entre os artistas pela excelência artística de Amadio e o impacto negativo de sua saída no ano das comemorações dos 50 anos da orquestra.
Legado de Ligia Amadio e machismo enraizado
Ligia Amadio assumiu em março de 2023 como a primeira regente titular mulher da OSMG, rompendo barreiras em um dos espaços mais machistas da música clássica, com carreira internacional em orquestras da América Latina, Europa e Ásia. Líder do Movimento Mulheres Regentes, ela elevou o nível artístico do grupo, mas foi ovacionada na ALMG ao suplicar por dignidade salarial: “Não é possível que um governo considere R$ 1.600 justo para um músico”. Sua demissão expõe não só misoginia estrutural, mas a gestão Zema que prioriza cortes em detrimento da cultura mineira, alegando “falta de recursos” enquanto planeja programações grandiosas.
Zema e o desmonte cultural em Minas
Romeu Zema, governador do Novo desde 2019, o mesmo que não conhecia Adélia Prado, acumula polêmicas com políticas que sufocam a cultura pública, como agora ao dispensar Amadio para supostos “regentes históricos” sem transparência sobre custos ou critérios. A FCS justifica a troca por “readequação” nos 55 anos da fundação, mas ignora o apelo dos músicos e o depoimento emocionado da maestra, que chamou a OSMG de “a mais mal paga do país”. Tal atitude revela intolerância a críticas legítimas, punindo quem defende o mínimo de justiça em um Estado rico que trata artistas como descartáveis.
