Mensagens do celular de Bolsonaro revelam pressão de Silas Malafaia sobre STF e atritos entre ex-presidente e Eduardo
Conteúdo apreendido pela Polícia Federal embasa indiciamentos por coação e expõe articulações nos Estados Unidos e pedido de asilo na Argentina

Luciano Meira
Mensagens privadas trocadas entre Jair Bolsonaro, seu filho Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados próximos, entre os quais o pastor Silas Malafaia, extraídas do celular do ex-presidente apreendido pela Polícia Federal (PF), foram divulgadas na última quarta-feira (20). As conversas fundamentaram o indiciamento de Jair e Eduardo Bolsonaro pelos crimes de coação a autoridades, motivado pela tentativa de obstrução da ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF) relativa à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
As mensagens evidenciam diversas frentes de atuação: a articulação de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca para pressionar autoridades americanas a suspender o julgamento do ex-presidente, o conflito entre pai e filho sobre estratégias políticas e comunicacionais, e o envolvimento direto do pastor Silas Malafaia na pressão à Suprema Corte.A PF localizou ainda, entre os arquivos do celular, um pedido de asilo político em nome de Bolsonaro endereçado ao presidente argentino Javier Milei. O documento, em formato editável e sem assinatura, reforça a suspeita de planejamento de fuga do ex-presidente para evitar as consequências legais.
Em nota, Eduardo Bolsonaro negou a intenção de interferir em processos judiciais. Declarou que seu foco sempre foi o restabelecimento das liberdades individuais por via legislativa, especialmente pelo projeto de anistia em tramitação no Congresso. Considerou “lamentável e vergonhoso” o tratamento das conversas privadas como crime, classificando-as como normais entre pai e filho.
O ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos no STF contra a tentativa de golpe, estabeleceu o prazo de 48 horas para Bolsonaro prestar esclarecimentos sobre o descumprimento de medidas cautelares e o risco de fuga. Moraes proibiu ainda Silas Malafaia de deixar o país e de manter contato com os investigados Bolsonaro pai e filho. O pastor foi interrogado pela PF ao chegar de Lisboa e afirmou a jornalistas: “Não vão me calar. Sou um líder religioso.”
Entre os diálogos, destaca-se a mensagem de Eduardo ao pai, em 7 de julho, mencionando uma “anistia light” — entendida pela PF como anistia restrita a Bolsonaro, e não a todos os envolvidos nos atos golpistas:
“Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar. (…) Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU enviar o pessoal que esteve num protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto. (…) Neste cenário você não teria mais amparo dos EUA, o que conseguimos a duras penas aqui, bem como estaria igualmente condenado final de agosto.”
Em 10 de julho, um dia após o presidente americano Donald Trump impor tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e divulgar carta contra o processo judicial, Eduardo escreveu a Bolsonaro destacando a importância de reconhecer o apoio político de Trump:
“O cara mais poderoso do mundo está a seu favor. Fizemos nossa parte. Se o maior beneficiado não consegue fazer um tweet vaselina, aí realmente ferrou. Você tem sido o meu maior empecilho para poder te ajudar.”
“Opinião pública vai entender e você tem tempo para reverter se for o caso. Você não vai ter tempo de reverter se o cara daqui virar as costas para você. Aqui é tudo muito melindroso, qualquer coisinha afeta. Na situação de hoje, você nem precisa se preocupar com cadeia, você não será preso. Mas tenho receio que por aqui as coisas mudem.”
O conflito entre pai e filho ganhou tom ácido em 17 de julho, após entrevista de Bolsonaro ao site Poder360, que citou uma intervenção do ex-presidente para apaziguar desentendimentos entre Eduardo e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Eduardo havia criticado Tarcísio por sua postura diante do tarifaço de Trump, classificando-o como “subserviente às elites”. Ao pai, Eduardo enviou a mensagem:
“Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas graças aos elogios que você fez a mim no Poder 360 estou pensando seriamente em dar mais uma porrada nele, para ver se você aprende.”
“VTNC seu ingrato do caralho! Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras aqui, porque você me joga pra baixo, quem vai se fuder é você e vai decretar o resto da minha vida nesta porra aqui!”
A participação de Malafaia nas estratégias do grupo também está registrada. Em 10 de julho, o pastor escreveu a Bolsonaro:
“Presidente! Você voltou para o jogo. Podem usar bravatas aqui, vão ter que sentar na mesa para negociar. Você é o cerne da questão. Quem é o Brasil para peitar os EUA? Mico contra um gorila. O vídeo que vou postar daqui a pouco eu vou ao cerne da questão. A próxima retaliação vai ser contra ministros do STF e suas famílias. Vão dobrar a aposta apoiando o ditador? Duvido!”
Três dias depois, orientou:
“Tem que pressionar o STF dizendo que se houver uma anistia ampla e total, a tarifa vai ser suspensa. Ainda pode usar o seguinte argumento: não queremos ver sanções contra ministros do STF e suas famílias! Eles se cagão (sic) disso! A questão da tarifa é justiça e liberdade, não econômica. Traz o discurso para isso!”
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que Malafaia atua como “orientador e auxiliar das ações de coação e obstrução promovidas pelos investigados Eduardo Nantes Bolsonaro e Jair Messias Bolsonaro”. Para o ministro Alexandre de Moraes, as mensagens indicam envolvimento doloso do pastor no esquema criminoso.
Curiosamente, Malafaia demonstra descontentamento com Eduardo Bolsonaro em mensagens de 11 de julho. Dirigindo-se a Bolsonaro, afirmou:
“Desculpa presidente! Esse seu filho Eduardo é um babaca, inexperiente que está dando a Lula e a esquerda o discurso nacionalista, e ao mesmo tempo te ferrando. Um estúpido de marca maior. Estou indignado! Só não faço um vídeo e arrebento com ele porque por consideração a você. Não sei se vou ter paciência de ficar calado se esse idiota falar mais alguma asneira.”
Por outro lado, elogiou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), outro filho do ex-presidente, pelo discurso moderado:
“Agora, presidente, a boa. Dá parabéns ao Flávio, pô. Falou certo, cacete. Na CNN… na Globo News. ‘Eu não sou a favor da taxação, não. Mas tem que sentar pra conversar sobre anistia. Pô, tudo a carta do Trump é pra você.'”
Por fim, o arquivo editável encontrado no celular de Bolsonaro com pedido de asilo político no nome do ex-presidente, direcionado ao argentino Javier Milei, indica a existência de planos para fuga num momento em que Bolsonaro enfrentava restrições severas, como a apreensão de seu passaporte e seu período na embaixada da Hungria em Brasília.
Segundo a Polícia Federal, embora o documento não tenha data nem assinatura, seu conteúdo demonstra que o réu planejava atos para fugir do país e impedir a aplicação da lei penal.
Esses diálogos fornecem um retrato revelador das ações e tensões internas que permearam o grupo político ligado a Bolsonaro nos últimos meses, acrescentando elementos que fundamentam o avanço das investigações sobre a tentativa de golpe e a coação das instituições democráticas.