Nikolas usou jatinho de Vorcaro em caravana pró-Bolsonaro em 2022
Deputado afirma que desconhecia dono da aeronave, vinculada a empresa de Daniel Vorcaro, e diz que viagem foi organizada por pastor aliado

Luciano Meira
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou, no segundo turno das eleições de 2022, um jato executivo do empresário Daniel Vorcaro, então CEO do Banco Master, para cumprir uma série de agendas de campanha em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em ao menos nove estados e no Distrito Federal, na caravana “Juventude pelo Brasil”. A aeronave, um Embraer 505 Phenom 300, foi usada em viagens concentradas em regiões onde Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia tido vantagem no primeiro turno, sobretudo no Nordeste, numa ofensiva da campanha bolsonarista para reduzir a diferença de votos na reta final da disputa.
Caravana pró-Bolsonaro e rotas do jatinho
Registros de voos e publicações em redes sociais mostram que o Phenom 300 atendeu à caravana liderada por Nikolas e pelo pastor Guilherme Batista, ligado à Igreja Lagoinha, entre 20 e 28 de outubro de 2022, período entre o primeiro e o segundo turno. Nesse intervalo, o grupo percorreu capitais de todos os estados do Nordeste, além de Brasília e cidades do Vale do Jequitinhonha e do Triângulo Mineiro, em agendas de mobilização juvenil favoráveis a Bolsonaro.
Imagens divulgadas por influenciadores evangélicos mostram o deputado posando ao lado do pastor Guilherme, da esposa dele, Mariel, e da influenciadora cristã Jey Reis em frente ao jato, identificado como Embraer 505 Phenom 300, com capacidade para até dez passageiros. Dados de transponder da aeronave indicam que os deslocamentos coincidem com datas e locais de eventos públicos da caravana e de outros compromissos da campanha, inclusive atos com a presença de Bolsonaro, numa sequência intensa de viagens em poucos dias.
Ligação com Daniel Vorcaro e Banco Master
A aeronave utilizada pelo grupo está vinculada à empresa de aviação executiva Prime You, que tinha, à época, o empresário Daniel Vorcaro como um de seus sócios. Vorcaro, por sua vez, era o CEO do Banco Master, instituição financeira que se projetou no mercado de crédito e participação em operações estruturadas e que passou a figurar em negócios de grande porte no país.
Reportagens que detalham a rota do jatinho apontam que o uso da aeronave por Nikolas e por aliados religiosos se deu em meio ao esforço da campanha bolsonarista para reagir ao desempenho de Lula em redutos eleitorais considerados adversos, sobretudo no Nordeste. A operação logística, segundo essas apurações, garantiu que o grupo cumprisse agendas em pelo menos nove estados e no DF em cerca de dez dias, numa estratégia de alta exposição do parlamentar nas redes sociais e em cultos, encontros com jovens e eventos de rua.
Versão de Nikolas e papel de pastor aliado
Procurado, Nikolas confirmou ter viajado no Embraer 505 Phenom 300, mas declarou que não sabia quem era o proprietário do avião. O deputado afirmou que o convite para participar da caravana partiu do pastor Guilherme Batista e que não teve envolvimento na organização logística dos voos nem tratou de questões relativas ao custeio da aeronave.
A caravana “Juventude pelo Brasil” combinou atos políticos pró-Bolsonaro com eventos religiosos e encontros em igrejas, numa estratégia que reforçou o papel de lideranças evangélicas no palanque do então presidente, porém não ficou claro quem financiou os deslocamentos e quais interesses econômicos estariam associados à estrutura colocada à disposição do grupo.
O uso de jatinhos privados em campanhas eleitorais costuma provocar questionamentos sobre prestação de contas e eventual caixa dois, especialmente quando envolvem empresários com atuação relevante no mercado financeiro e contratos de alto valor. No caso de Nikolas, a revelação das viagens em aeronave ligada a Vorcaro alimenta o debate sobre o grau de proximidade entre o deputado, setores do bolsonarismo e grupos econômicos robustos envolvidos em escândalos.
As rotas do Phenom 300 evidenciam a prioridade dada a áreas onde Lula saiu na frente no primeiro turno, como capitais nordestinas e regiões de baixa renda, numa tentativa de reduzir a vantagem petista por meio de apelos religiosos e discursos conservadores, em esforço não foi suficiente para reverter o resultado nacional.
