Passando a boiada: STF confirma Ricardo Salles como réu por contrabando de madeira
Alexandre de Moraes torna réu o ex-ministro do Meio Ambiente, símbolo da frase que incentivava “passar a boiada” durante a pandemia para flexibilizar normas ambientais

Luciano Meira
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta semana que Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, será julgado no STF em ação penal que apura seu envolvimento em esquema de contrabando de madeira da Amazônia. A decisão acompanha a nova orientação da Corte sobre foro privilegiado e retira o processo da Justiça Federal do Pará, onde estava, para que o caso volte a tramitar na mais alta instância.
Salles, que durante reunião ministerial em 2020 ficou conhecido por defender que o governo aproveitasse o momento de distração da imprensa pela pandemia da Covid-19 para “passar a boiada” — isto é, afrouxar regras ambientais — agora se vê no banco dos réus justamente por acusações ligadas a essa mesma gestão. Segundo as investigações, o ex-ministro teria atuado para dificultar a fiscalização ambiental e favorecer empresas envolvidas no comércio ilegal de madeira, permitindo a saída irregular do produto do território nacional. A denúncia aponta que, mesmo diante de evidências de irregularidades, medidas efetivas para coibir a ação foram obstruídas ou não implementadas, configurando abuso de poder e prevaricação.
A frase que viralizou na pandemia, usada por Salles para justificar ações que minaram a fiscalização ambiental, agora ganha ares de ironia: a boiada não passou apenas nas normas e na lei, mas agora também parece estar passando sobre ele, com o processo avançando em sua trajetória judicial.O caso envolve a suspensão, enquanto ministro, da necessidade de autorizações para exportar madeira nativa, e a legalização retroativa de milhares de cargas que teriam sido vendidas ilegalmente para o exterior. Além dele, outros servidores do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama também são investigados e réus no processo.
A movimentação judicial ocorre em meio a crescentes investigações e controvérsias sobre políticas ambientais na gestão pública, com repercussões que ultrapassam o âmbito jurídico e entram no debate sobre sustentabilidade e responsabilidade governamental.