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PF apreende jatinho de deputado mineiro investigado por fraudar aposentados

Aeronave de Euclydes Pettersen, presidente do Republicanos em Minas, é apreendida em desdobramento da operação que apura esquema bilionário de descontos ilegais em benefícios do INSS, enquanto seu partido segue abraçado à fé — e ao poder

Deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) – Foto: Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

A Polícia Federal apreendeu o jatinho particular do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), presidente estadual do partido, em um desdobramento da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de fraudes e descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS com potencial rombo de bilhões de reais aos cofres públicos. Segundo a PF, o parlamentar é suspeito de ter recebido R$ 14,7 milhões em propina para oferecer “proteção política” ao esquema que mirou justamente aposentados e pensionistas, o tipo de público que costuma ser exaltado em palanques como “gente de bem”.

O jatinho na mira da PF

A apreensão da aeronave ocorreu na segunda-feira (23), como medida cautelar dentro do bloqueio de bens do deputado, que já vinha sendo alvo de buscas e apreensões desde o fim de 2025. A PF trata o jatinho como patrimônio que pode ter relação com o suposto enriquecimento decorrente do esquema de fraudes no INSS, integrado por entidades e empresas que atuavam com descontos não autorizados na folha de benefícios.Em nota, o deputado afirmou que a aeronave foi adquirida antes dos fatos investigados, com recursos próprios e licitamente obtidos, e que o bloqueio atinge indistintamente todos os seus bens, sem significar juízo de culpa — a velha fórmula do “sou inocente, mas meu patrimônio inteiro está retido por engano”. A PF, por sua vez, não detalhou a operação sob o argumento de que o caso corre em sigilo, outra praxe de investigações que costumam desembocar em longas disputas judiciais e discursos inflamados em plenário.

O esquema do “Herói E” e o rombo no INSS

A Operação Sem Desconto mira um esquema nacional de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS, envolvendo entidades como a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) e o Instituto Terra e Trabalho (ITT). A PF aponta que aposentados tiveram valores abatidos sem autorização, gerando um prejuízo que pode chegar à casa dos bilhões, em um país onde o benefício muitas vezes mal cobre remédio e arroz.

Nesse enredo, Euclydes Pettersen aparece nas planilhas dos investigadores com o codinome nada modesto de “Herói E”, apontado como o político encarregado de blindar o esquema em Brasília. De acordo com a PF, o deputado teria recebido R$ 14,7 milhões por meio de empresas ligadas a ex-dirigentes do INSS e intermediários, em pagamentos periódicos associados à liberação de lotes de recursos para entidades envolvidas nos descontos ilegais.

Linha do tempo

Novembro de 2025: PF cumpre mandado de busca e apreensão em endereços ligados a Pettersen, incluindo apartamento funcional em Brasília, na quarta fase da Operação Sem Desconto.

Investigações apontam Pettersen como articulador político da Conafer e beneficiário de propinas para sustentar o esquema de descontos indevidos.

Fevereiro de 2026: jatinho do deputado é apreendido como parte do bloqueio de bens no caso.

Enquanto isso, o parlamentar nega irregularidades, insiste na narrativa de perseguição e tenta enquadrar a apreensão do jatinho como um simples “excesso” da Justiça, em vez de resultado de uma investigação que o trata como elemento central de um esquema que usou o bolso de aposentados como caixa eletrônico.

O deputado, o Republicanos e a fé conveniente

Euclydes Pettersen construiu sua trajetória política em Minas Gerais, foi eleito deputado federal em 2018, reeleito em 2022 e, após a última eleição, deixou o PSC para se filiar ao Republicanos, assumindo a presidência estadual da sigla. O partido, de direita e com forte atuação no campo dos costumes, costuma se apresentar como defensor da família, da moral cristã e dos “valores conservadores”, enquanto hoje vê um dos seus dirigentes no centro de um escândalo que atinge justamente tudo o que supostamente deveria ser defendido.

O Republicanos não é um partido qualquer no tabuleiro religioso-político: a sigla tem ligação histórica e orgânica com a Igreja Universal do Reino de Deus, e seu presidente nacional, Marcos Pereira, é bispo da igreja, o que faz da legenda uma espécie de braço institucional de um projeto de poder evangélico. Essa simbiose entre púlpito e plenário se traduz em bancadas alinhadas a discursos religiosos, defesa de pautas conservadoras e uma narrativa constante de que agem em nome da fé — narrativa hoje confrontada pela imagem pouco celestial de um jatinho de líder partidário sendo recolhido pela PF no contexto de fraude contra aposentados.

Púlpito, plenário e o evangelho do privilégio

A presença de figuras como Pettersen na cúpula do Republicanos reforça um padrão em que líderes políticos ligados a igrejas evangélicas ascendem com discurso moralista, enquanto orbitam esquemas de poder, verbas públicas e, quando a PF bate à porta, jatinhos. Em vez do “pastor do rebanho”, o roteiro sugere algo mais próximo do gestor de interesses, onde aposentados e pensionistas entram como massa de manobra estatística em planilhas que falam a linguagem das propinas e dos descontos indevidos.

O caso de Pettersen expõe o contraste entre a retórica de defesa dos “humildes” e a prática de voar em aeronave particular enquanto benefícios de quem trabalhou a vida inteira são fatiados na folha do INSS. No fim, o “Herói E” que circula em palanques religiosos e conservadores aparece nas investigações não como salvador dos aposentados, mas como beneficiário de um esquema que tratou a fé, a política e o dinheiro público como itens de um mesmo pacote de vantagens — agora, parcialmente pousado em um pátio da PF.

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