PF cumpre mandados em investigação de vazamento de dados fiscais de ministros do STF
Receita Federal admite acessos indevidos a informações sigilosas de magistrados e parentes; operação mira servidores suspeitos

Luciano Meira
A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (17) operação para investigar múltiplos acessos ilícitos a dados fiscais de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus familiares na Receita Federal, culminando em buscas e medidas cautelares contra quatro servidores suspeitos. A Receita confirmou desvios, incluindo quebra de sigilo da esposa de Alexandre de Moraes e do filho de outro ministro, no âmbito do inquérito das fake news, sob relatoria do próprio Moraes. O caso expõe vulnerabilidades em sistemas sigilosos e pode resultar em punições criminais.
A suspeita surgiu em dezembro de 2025, quando detalhes de contratos da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, foram divulgados pela imprensa, irritando o magistrado e levando à abertura de inquérito em janeiro de 2026 para apurar possíveis quebras irregulares de sigilo pela Receita e pelo Coaf. Em 11 de janeiro, a Corregedoria da Receita instaurou procedimento interno com base em reportagens; no dia seguinte, o STF solicitou auditoria completa nos sistemas para rastrear acessos aos últimos três anos envolvendo cerca de 100 pessoas, incluindo os dez ministros e parentes como pais, filhos, irmãos e cônjuges. Essa varredura, que cruza 80 sistemas e cerca de 8 mil procedimentos, identificou acessos sem justificativa funcional, comunicados diretamente ao gabinete de Moraes.
Nesta terça, a PF cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, autorizados por Moraes a pedido da PGR, sem prisões, mas com afastamento das funções, suspensão de passaportes, proibição de saída do país, recolhimento domiciliar noturno e fins de semana, e uso de tornozeleira eletrônica para os suspeitos: Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento, Ruth Machado dos Santos e Ricardo Mansano de Moraes, servidores da Receita ou cedidos. Moraes decretou quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático dos alvos para verificar possível venda de dados. O STF divulgou nota afirmando que os acessos visavam criar “suspeitas artificiais de difícil dissipação”, enquanto a Receita enfatizou que seus sistemas são rastreáveis e que ampliou controles desde 2023, com sete processos disciplinares resultando em três demissões.
As investigações prosseguem sob sigilo no Inquérito 4.781, com depoimentos dos suspeitos à PF para apurar a extensão dos vazamentos, eventuais articulações políticas e responsabilizações; relatório final da auditoria da Receita é esperado após o Carnaval. Não há indícios iniciais de motivação política, mas o episódio reforça debates sobre proteção de dados de autoridades. A Receita reiterou intolerância a desvios, prometendo punições administrativas e criminais.
Quem são servidores públicos ligados à Receita Federal ou cedidos a outros órgãos que foram alvos da operação da Polícia Federal deflagrada em 17 de fevereiro de 2026
Luiz Antônio Martins Nunes (cedido ao Serpro, atuando no Rio de Janeiro)
Cargo: técnico do Serpro
Lotação atual: Delegacia da RFB no Rio de Janeiro
Salário: R$ 12.778,82
Ingresso: 22/04/1981
Luciano Pery Santos Nascimento (técnico do seguro social, em Salvador, BA)
Cargo: técnico do Seguro Social
Lotação atual: Delegacia da RFB em Salvador
Salário: R$ 11.517,49
Ingresso: 25/01/1983
Ruth Machado dos Santos (técnica do seguro social, em Santos, SP)
Cargo: técnico do Seguro Social
Lotação atual: Delegacia da RFB em Santos
Salário: R$ 11.128,16
Ingresso: 15/04/1994
Ricardo Mansano de Moraes (auditor-fiscal da Receita Federal, em São Paulo)
Cargo: auditor-fiscal da Receita Federal
Lotação atual: Delegacia da RFB em São José do Rio Preto
Salário: R$ 38.261,86
Ingresso: 27/11/1995
Medidas Aplicadas
Eles sofreram buscas e apreensões em SP, RJ e BA, afastamento de funções, quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático, proibição de acesso a sistemas da Receita e Serpro, recolhimento domiciliar noturno e em fins de semana com tornozeleira, além de suspensão de passaportes e veto à saída do país.
Reações no STF
O Supremo divulgou nota justificando a ação como proteção institucional, destacando acessos sem justificativa para produzir narrativas difamatórias difíceis de rebater, no âmbito do inquérito das fake news. Isso reforça desconfiança interna sobre investigações paralelas contra a Corte, ampliando o clima de tensão.
Críticas Externas
Juristas questionam a imparcialidade de Moraes como relator, pois ele é vítima potencial, violando princípios de impedimento judicial. Políticos como senador Alessandro Vieira (MDB-SE), criticam a operação como distração para ocultar supostos crimes de autoridades.
Implicações Maiores
A PF apura motivações políticas ou financeiras, podendo expor articulações contra o STF em contexto de polarização pós-eleições. O caso alimenta debates sobre abuso de dados fiscais, com histórico de vazamentos semelhantes envolvendo ministros como Gilmar Mendes.
