PGR defende prisão domiciliar para General Demente
Parecer de Paulo Gonet cita idade avançada e quadro de saúde grave de ex-ministro de Bolsonaro, condenado pelo STF a 21 anos de prisão por participação em plano de golpe de Estado

Luciano Meira
A Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu a concessão de prisão domiciliar em caráter humanitário para o general da reserva Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) de Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 21 anos de prisão por integrar a trama de golpe de Estado para manter o ex-presidente no poder. No parecer, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, alega que a idade do militar, de 78 anos, e o quadro de saúde, que inclui diagnóstico de Alzheimer desde 2018, justificam a medida excepcional, cabendo ao ministro Alexandre de Moraes decidir se acata ou não a recomendação. O caso reacende o debate sobre a responsabilização de militares de alta patente envolvidos em conspiraciones antidemocráticas e sobre o uso de argumentos humanitários em favor de condenados por crimes contra a ordem constitucional.
Quem é Augusto Heleno
Augusto Heleno Ribeiro Pereira é general de Exército da reserva, ex-comandante militar da Amazônia e figura central do núcleo militar que cercou Jair Bolsonaro desde a campanha de 2018 até o fim do governo. No governo Bolsonaro, chefiou o GSI, estrutura que controla a inteligência da Presidência, inclusive a Abin, e se projetou como um dos principais porta-vozes da ala radical das Forças Armadas, com discursos de viés autoritário e ataques velados às instituições civis.
Ao longo da carreira, construiu reputação de oficial de linha dura, crítico da abertura democrática e da Justiça de transição, reputação que o aproximou de setores saudosos da ditadura e o transformou em referência para grupos de extrema direita. A trajetória o coloca como elo entre o autoritarismo da ditadura militar e a tentativa contemporânea de subversão da ordem constitucional, que culminaria na trama golpista julgada pelo STF.
O “golpe dentro do golpe” de 1977
Nos anos 1970, então capitão, Heleno foi ajudante de ordens do general Sylvio Frota, ministro do Exército no governo Ernesto Geisel e liderança da chamada “linha dura” que rejeitava qualquer abertura política. Frota articulou um movimento para derrubar Geisel por considerá-lo “brando” com opositores, episódio que a historiografia e especialistas qualificam como tentativa de “golpe dentro do golpe” — uma conspiração golpista interna ao próprio regime militar.
Pesquisadores como o historiador Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, destacam que Heleno integrou esse círculo conspiratório, reforçando o que chamam de seu “DNA golpista”, ao lado de oficiais que defendiam radicalizar a repressão e barrar qualquer transição democrática. A tentativa foi derrotada politicamente, com a demissão de Frota por Geisel, mas deixou marcada a imagem de Heleno como oficial disposto a confrontar até o próprio comandante-em-chefe em nome de um projeto autoritário.
Atuação no Haiti e acusações de abusos
Décadas depois, já general, Heleno comandou a força militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, em um dos períodos mais duros de ocupação de bairros pobres de Porto Príncipe. Sob seu comando, operações como a ofensiva em Cité Soleil, em julho de 2005, envolveram uso maciço de munição — com relatos de dezenas de mortos civis, incluindo mulheres e crianças — e se tornaram símbolo de uma “paz pela força” criticada por organizações de direitos humanos.
Entidades haitianas e centros de pesquisa internacionais levaram denúncias à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, apontando para mortes de moradores desarmados, impunidade e conivência da missão com abusos. Em audiência no Congresso brasileiro, Heleno rechaçou as acusações, atacou o perfil político dos denunciantes e adotou tom de desdém em relação às preocupações com violações de direitos, postura que, segundo ativistas, expôs um padrão de desprezo pela vida de populações pobres sob ocupação militar.
O general no governo Bolsonaro
No governo Bolsonaro, o general assumiu o GSI e colocou sob sua alçada a inteligência oficial do Estado, incluindo a Abin, ao mesmo tempo em que estimulava, publicamente, interpretações distorcidas da Constituição para justificar um papel tutelar das Forças Armadas sobre os demais poderes. Em diversas ocasiões, acenou a apoiadores golpistas, relativizando ameaças às instituições e alimentando a narrativa falsa de que militares poderiam atuar como “poder moderador” com base no artigo 142 da Constituição.
Apurações posteriores indicaram que, do GSI, Heleno participou da construção de narrativas de desconfiança sobre as urnas eletrônicas, alinhando a máquina estatal a uma campanha deliberada de deslegitimação do sistema eleitoral que preparou o terreno para a trama golpista de 2022. Relatórios indicam que ele atuou em conjunto com o então diretor da Abin, Alexandre Ramagem, na elaboração e difusão de mensagens questionando a integridade do processo eleitoral, repetidas por Bolsonaro em discursos públicos.
Condenação por tentativa de golpe de Estado
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Augusto Heleno a 21 anos de prisão, em regime inicial fechado, por tentativa de golpe de Estado, entre outros delitos apontados pela Procuradoria-Geral da República na denúncia sobre a trama golpista. A decisão considerou que os crimes se desdobraram em cadeia de atos articulados para impedir o cumprimento do resultado eleitoral ou forçar o retorno de Bolsonaro ao poder pela força, incluindo a elaboração de um plano que previa inclusive atentados contra autoridades como o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
A Turma entendeu que Heleno teve papel direto na concepção do plano e na sustentação da ofensiva golpista, incidindo tanto por ação — ao articular narrativas e apoiar estratégias operacionais — quanto por omissão qualificada, ao não conter mobilizações antidemocráticas que partiram de áreas sob sua influência. A condenação a mais de duas décadas de prisão marcou uma resposta rara e contundente do Judiciário a um general de quatro estrelas, escancarando o envolvimento de altas patentes na tentativa de ruptura institucional.
Prisão, saúde e o pedido de domiciliar
O trânsito em julgado do caso abriu caminho para o cumprimento imediato da pena, e o general foi preso em novembro de 2025 para iniciar o cumprimento no Comando Militar do Planalto, em Brasília. Na admissão, relatou à equipe médica sofrer de Alzheimer desde 2018 e apresentar outras enfermidades, quadro que sua defesa apresentou como incompatível com a permanência em estabelecimento prisional comum, mesmo em unidade militar.
Diante do pedido de prisão domiciliar, Paulo Gonet afirmou que a jurisdição do STF admite a medida em favor de condenados com doença grave que exija tratamento não disponível no sistema prisional ou hospitalar adequado, e avaliou que “circunstâncias postas” exigem reavaliar a situação de Heleno. No parecer, o PGR classificou a prisão domiciliar como “medida excepcional” proporcional à idade e ao estado clínico do general, destacando o risco de agravamento do quadro caso ele permaneça afastado do ambiente familiar e de cuidados contínuos.
Questionamentos à “clemência” a um condenado golpista
A defesa de um benefício humanitário para um general condenado por planejar a subversão da ordem constitucional provoca reações críticas, especialmente diante do histórico de Heleno de alinhamento a projetos autoritários desde a ditadura até a tentativa fracassada de manter Bolsonaro no poder. Para críticos, o militar que se projetou como símbolo da linha dura, tolerante com violações no Haiti e indulgente com ameaças golpistas internas, agora reivindica garantias que ele próprio relativizou quando exercia poder sobre vidas e direitos de terceiros.
Organizações e analistas que acompanham o processo veem na eventual concessão da prisão domiciliar um teste para a capacidade do Estado de punir exemplarmente atentados à democracia sem abrir mão de parâmetros humanitários universais — inclusive para quem conspirou reiteradamente contra esses mesmos valores. Ao centro da controvérsia está a figura de Augusto Heleno, cuja trajetória combina, de forma rara e contundente, a continuidade de um caráter golpista desde os porões da ditadura até o coração do governo Bolsonaro e, por fim, o banco dos réus do Supremo Tribunal Federal.
