‘Série B’ da direita ataca Judiciário em busca de holofotes no Sul
Presidenciáveis com baixa intenção de voto utilizam palanque gaúcho para criar fatos políticos

Fotos: Reprodução Redes Sociais – Arte RMC
Luciano Meira
Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Aldo Rebelo (DC), ex-governadores e ex-ministro, todos com desempenho irrisório nas pesquisas eleitorais de 2026, reuniram-se na noite de quinta-feira (9) em evento conservador para disparar críticas ao Judiciário e tentar se destacar no disputado campo da direita. O trio, que patina com menos de 7% das intenções de voto em levantamentos recentes, escolheu o ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF) como estratégia para criar factoides e atrair atenção nacional. O episódio, ocorrido na 39ª edição do evento conhecido como Fórum da Liberdade em Porto Alegre, RS, um encontro de direita, deixou exposta a fragilidade de pré-candidatos regionais que buscam projeção presidencial sem base eleitoral ampla.
O evento reuniu apoiadores conservadores em clima de palanque antecipado. Caiado, ex-governador de Goiás, abriu fogo ao acusar o Judiciário de interferir em decisões políticas e perseguir figuras de direita. Zema, de Minas Gerais, seguiu a mesma linha, ecoando declarações anteriores em que chamou o STF de algoz dos conservadores, como no Roda Viva de 2025, quando defendeu anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Aldo Rebelo, ex-comunista e ex-ministro, filiado ao DC de José Maria Eymael, uniu-se ao coro, posicionando-se como alternativa “séria” em um campo lotado.
Os políticos buscaram estabelecer marcas próprias diante de uma plateia de empresários e lideranças liberais. O painel ocorreu sem a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL), que é o principal herdeiro do capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro, permitindo que os pré-candidatos do que poderíamos chamar de “Série B”, ocupassem o espaço para testar discursos que variam entre o agronegócio, a gestão administrativa e o nacionalismo. Pesquisas recentes confirmam o baixo apelo nacional desses nomes. Levantamento da Meio/Ideia, divulgado em 7 de abril, dá a Caiado 6,5% no primeiro turno, Zema 3% e Rebelo 0,6%, atrás de Lula (PT, 40,4%) e Flávio Bolsonaro (37%). Outra pesquisa Quaest, de março, reforça a irrelevância dos participantes.
Ronaldo Caiado defendeu a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro como prioridade de governo. O ex-governador de Goiás classificou a medida como seu “primeiro ato” caso seja eleito para a Presidência da República. Caiado também sugeriu que facções criminosas recebam a classificação de grupos terroristas. A proposta de anistia já havia sofrido oposição do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD-RS), que afirmou que a medida não auxilia a despolarização do país, quando ainda era um dos nomes cotados para disputar a presidência pelo mesmo PSD de Caiado.
O governador mineiro Romeu Zema direcionou críticas ao sistema judiciário sem citar nomes de ministros ou magistrados. Zema afirmou que a aprovação em concursos públicos transformou juízes em “cidadãos perfeitos”, o que classificou como uma “aberração”. O político do Novo destacou sua capacidade de formar coalizões partidárias para tentar demonstrar viabilidade eleitoral além de Minas Gerais. Zema também elogiou o modelo de segurança pública de El Salvador, implementado pelo governo de Nayib Bukele.
Aldo Rebelo apresentou o discurso mais incisivo contra o Supremo Tribunal Federal (STF) durante a abertura do painel. O ex-ministro declarou que o Brasil é “ingovernável” com a atual composição da corte. Rebelo tentou conciliar sua trajetória histórica em partidos de esquerda com pautas conservadoras, como a crítica ao ambientalismo e ao identitarismo. Ele utilizou sua atuação na relatoria do Código Florestal para reforçar sua aproximação com o setor produtivo.
Os dados eleitorais recentes mostram que a estratégia de criar factóides ainda não se converteu em apoio popular expressivo. Nenhum dos três nomes atinge dois dígitos nas simulações de primeiro turno, figurando nas margens de erro das principais pesquisas. Analistas políticos avaliam que a retórica agressiva contra o Judiciário serve como instrumento para atrair a militância digital, mas não altera a estrutura de preferência do eleitorado moderado.
A repercussão do evento entre especialistas aponta para uma fragmentação precoce da direita não bolsonarista. A tentativa de personificar uma alternativa viável esbarra na falta de unidade e na ausência de um programa econômico distinto do atual governo ou da gestão anterior. O isolamento desses nomes sugere que a movimentação visa prioritariamente a sobrevivência política e a manutenção de influência nos diretórios partidários nacionais.
O impacto desse movimento reflete a dificuldade de renovação de lideranças fora do eixo de polarização tradicional. A insistência em pautas de anistia e ataques institucionais mantém o debate público focado em tensões políticas em detrimento de soluções para problemas estruturais. Politicamente, a divisão reforça a percepção de um sistema partidário da direita focado em interesses de grupos minoritários. Economicamente, governadores como Zema e Caiado enfrentam desafios fiscais em seus estados, o que pode minar credibilidade nacional. Socialmente, reforça polarização, mas com eco limitado dado o desempenho eleitoral pífio – um chute no escuro de quem joga na reserva, enquanto o Brasil claramente prefere o gramado principal do Planalto.
