Suspeitas na Educação: Zema nomeia secretário envolvido em denúncias de corrupção
Governador ignora críticas e amplia aposta em escolas cívico-militares ao entregar pasta a figura polêmica

Luciano Meira
A posse do novo secretário de Educação de Minas Gerais, Rossieli Soares, nesta quarta-feira (6/8), chama a atenção menos pelo currículo do ex-ministro de Temer e mais pelo histórico de polêmicas que cercam seu nome, incluindo denúncias antigas que pairam sobre gestões anteriores e métodos de condução de políticas públicas. Ao entregar as chaves da educação mineira a uma figura marcada por investigações e suspeitas, o governador Romeu Zema (Novo) amplia seu próprio roteiro de controvérsias, deixando de lado compromissos com ética e transparência para privilegiar um modelo de gestão focado mais em ideologia do que em resultados.A solenidade de posse na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte, aconteceu sob um clima de dúvidas e críticas, tanto por parte de entidades sindicais quanto de setores acadêmicos que veem com preocupação a crescente aproximação do governo Zema de práticas associadas à judicialização do ensino, militarização e envolvimento de quadros investigados ou processados por corrupção em diferentes estados. Não é a primeira vez que nomes sobre os quais pesam denúncias disputam cargos no alto escalão da educação mineira, mas desta vez, a aposta do governo Novo soa especialmente arriscada e pouco transparente.
O novo secretário assume em meio ao debate acalorado sobre o avanço do programa de escolas cívico-militares no estado. O projeto, cujos resultados são controversos e dividem especialistas, está sendo ampliado por Zema apesar de resistências da comunidade escolar e de alertas sobre a tentativa de promover uma militarização disfarçada sob o pretexto de valores cívicos. O governo já lançou consulta para possível expansão do modelo para mais de 700 escolas, enquanto atualmente apenas nove estaduais trabalham com a gestão compartilhada entre educadores e forças militares. Para críticos, trata-se de um instrumento de controle político-ideológico sobre a educação, marcado por ausência de diálogo e desprezo às reais demandas das escolas mineiras.
Não bastasse a escolha controversa e a falta de transparência no processo de definição do novo secretário, Zema, que deveria ser o principal guardião da qualidade do ensino em Minas, optou mais uma vez por ignorar o apelo de professores e comunidades, colocando a pasta nas mãos de alguém ainda às voltas com denúncias que já renderam auditorias e investigações em outros estados. O que se vê, portanto, é a repetição de um padrão: politicagem, desinstitucionalização e a tentativa de silenciar a pluralidade do ambiente escolar em nome de um projeto que prioriza interesses políticos — ainda que para isso seja preciso abrir as portas da secretaria para quem deveria estar explicando-se à Justiça.
Quem é Rossieli Soares

Rossieli Soares, nomeado secretário de Educação de Minas Gerais, carrega uma série de escândalos e polêmicas envolvendo diferentes gestões estaduais nas quais atuou e episódios que levantam dúvidas sobre sua condução de políticas e contratos públicos.
Resumo dos principais escândalos:
Condenação por irregularidades no Amazonas: Quando secretário de Educação do Amazonas, o Tribunal de Contas do Estado condenou Rossieli a devolver R$2,2 milhões aos cofres públicos por pagamentos feitos a empresas de construção por obras em escolas que não teriam sido executadas. Também foram citadas falhas graves de controle e documentação. Rossieli recorreu, mas a condenação foi destaque negativo em seu currículo.
Contratos e dispensas polêmicas: No Pará, foi alvo de críticas e de pedidos de investigação por contratos milionários celebrados durante e após sua gestão, especialmente para a compra de veículos escolares e uniformes, além de denúncias de blindagem de servidores fantasmas. O Ministério Público Federal chegou a abrir investigações e a pedir explicações, devido a suspeitas de dispensa indevida de licitação e possíveis relações com doadores de campanha.
Gestão controversa em São Paulo: Durante a pandemia, criou grande polêmica ao reabrir escolas estaduais em São Paulo no auge da crise sanitária e escassez de vacinas, sendo acusado formalmente por deputados de colocar vidas em risco. Houve também denúncias sobre suposto uso da máquina pública para fins eleitorais, acusação que tramita no Ministério Público Eleitoral e motivou debates sobre abuso de poder político.
Protestos indígenas e educacionais no Pará: No comando da Educação paraense, Rossieli concordou com a lei que alterou profundamente o ensino presencial em comunidades indígenas e rurais, substituindo-o por ensino remoto em áreas sem infraestrutura adequada. A medida gerou ocupações do prédio da secretaria, críticas nacionais e, após intervenção federal, a revogação da norma pela Assembleia Legislativa.
Críticas recorrentes à condução de políticas públicas: Há ainda um histórico de resistência a suas políticas tanto por parte de sindicatos quanto de comunidades tradicionais. Sua chegada e saída de cargos costumam ser acompanhadas de protestos e denúncias de autoritarismo, negligência com participação social e favorecimento de grupos ou empresas em contratos públicos.
Em síntese, Rossieli Soares chega à gestão mineira da educação marcado por suspeitas de corrupção, condenação por mau uso de recursos públicos, investigações em diferentes estados e trajetórias administrativas contestadas pela comunidade escolar e órgãos de controle. A maioria das denúncias ainda não resultou em condenações definitivas, mas o acúmulo de episódios e investigações fragiliza o discurso de transparência e ética que deveria pautar a condução da educação pública.
Ao final do dia, resta a inevitável pergunta: com tantos profissionais respeitados e éticos em Minas Gerais, por que o governo Zema escolhe para comandar a educação justamente quem carrega consigo a sombra de investigações e a defesa ativa da ideologia cívico-militar? A população mineira merece respostas — e educação pública livre de suspeitas e ingerências autoritárias.