Um rato a menos

Ao desistir do Planalto, Ratinho Jr. escancara o vazio de lideranças em uma direita que respira por aparelhos

Ilustração gerada por IA
Luciano Meira

A política brasileira assiste a um movimento de refluxo que, embora travestido de “prudência administrativa”, revela a incapacidade da direita em construir uma alternativa viável ao projeto de reconstrução nacional liderado pelo presidente Lula. O anúncio de que o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), abriu mão de disputar a Presidência em 2026 é o reconhecimento tácito de que sua candidatura nunca decolou. Sem palanque nacional e limitado ao seu reduto, o paranaense retira-se para tentar salvar o que resta de sua influência regional, deixando órfã uma parcela do eleitorado que ainda busca um centro-direita moderado.

A desistência de Ratinho Jr. acentua o quadro de uma direita que, privada da liderança direta de um Jair Bolsonaro inelegível, transformou-se em uma UTI política. O que se vê hoje é um amontoado de candidaturas natimortas que tentam sobreviver artificialmente. Além de Ratinho, nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil), Eduardo Leite (PSDB), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Aldo Rebelo (DC), compõem um mosaico de vaidades e fragmentação. Somam-se a eles figuras sem viabilidade, como Ciro Gomes (PDT), que flerta com o campo conservador, evidenciando a falta de um fio condutor ideológico.Enquanto o governo federal avança em indicadores econômicos e na retomada de políticas sociais, a oposição patina em dilemas paroquiais. Tarcísio de Freitas, acossado pelo bolsonarismo radical, hesita em trocar o conforto do governo paulista por uma derrota quase certa no plano federal. Já Zema e Caiado seguem aprisionados em seus estados, incapazes de dialogar com as massas do Nordeste ou com a classe trabalhadora urbana, que volta a enxergar no Estado um indutor de bem-estar sob a gestão petista. São figuras que pregam uma eficiência técnica que a realidade social do país desmente.

A situação do clã Bolsonaro é ainda mais delicada. Flávio e Michelle tentam herdar um capital político que parece não se transferir automaticamente por osmose familiar. Sem o cargo e sob o peso de investigações, o bolsonarismo “raiz” hoje é mais um estorvo para a direita dita “limpinha” do que um trunfo. A fragmentação é tamanha que permite a emergência de figuras como Pablo Marçal, que operam na lógica do espetáculo digital, drenando a seriedade de qualquer debate programático e expondo a indigência intelectual desse campo político.

A saída de Ratinho Jr. do páreo é, portanto, um favor ao pragmatismo. O PSD de Gilberto Kassab, mestre em ler os ventos do poder, percebe que o centro de gravidade política permanece em Brasília. Sem uma unidade mínima, essa constelação de candidatos respirando por aparelhos apenas pavimenta o caminho para a consolidação da agenda do presidente Lula. A oposição não tem projeto de país; tem projetos de poder individuais que se anulam mutuamente em um mar de ressentimento e falta de propostas concretas para o povo brasileiro.

Nos próximos meses, a tendência é que o efeito dominó se intensifique. O realismo das pesquisas deve forçar novos recuos, empurrando esses pretensos presidenciáveis para disputas menores em cargos de vice, Senado ou à sobrevivência nos governos estaduais. A direita brasileira hoje é um arquipélago de derrotas anunciadas, incapaz de oferecer um contraponto à estabilidade institucional e ao crescimento que o atual governo vem entregando após anos de desmonte e negacionismo.

O impacto político desse cenário é a demonstração de que o Brasil busca solidez, não aventuras. A desistência de Ratinho Jr. é o símbolo de uma oposição que encolhe diante da necessidade de reconstruir o pacto social. No fim das contas, a ausência de um nome competitivo à direita não é apenas um problema partidário, mas o reflexo de um campo que perdeu a conexão com as necessidades reais da população e que, agora, assiste de longe ao sucesso de um governo que voltou a colocar o Brasil no rumo do desenvolvimento.

Luciano Meira

Editor do portal O Metropolitano
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