Vale retoma mina e ameaça nascentes da região de Brumadinho
Reativação da Mina da Jangada gera temor por segurança hídrica em comunidades locais enquanto cidade recorda vítimas de tragédia em 2019

Luciano Meira
Sete anos após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, que causou 272 mortes, a mineradora Vale e sua arrendatária, a Itaminas, retomaram as atividades de extração de minério no mesmo complexo em Brumadinho (MG). A reabertura da Mina da Jangada ocorre no momento em que a tragédia completa sete anos e acende um alerta entre moradores e especialistas sobre o risco de desabastecimento de água.
O retorno das operações foi viabilizado em 2025, quando o governo de Minas Gerais reativou a licença ambiental da unidade, suspensa desde o desastre de 2019. Embora o direito de exploração pertença à Vale, a operação física foi repassada à Itaminas. A principal preocupação das comunidades de Casa Branca e Jangada é o rebaixamento do lençol freático, processo comum em grandes cavas de mineração que pode secar as nascentes locais.
Relatos de moradores indicam que cursos d’água históricos já apresentam vazão reduzida, surgindo apenas em períodos de chuvas intensas. Atualmente, grande parte da população de Brumadinho depende do fornecimento de água mineral pela mineradora, uma vez que o Rio Paraopeba permanece comprometido pelos rejeitos. A retomada da atividade mineradora é vista por movimentos sociais, como o Instituto Cordilheira, como uma ameaça direta à última reserva de água limpa da região.
A Vale afirma que trabalha com monitoramento rigoroso e que estudos hidrogeológicos indicam que as estruturas rochosas locais funcionam como barreiras, protegendo as nascentes. No entanto, o histórico das empresas gera desconfiança. No dia que marcou os sete anos do crime ambiental, em 25 de janeiro, outros dois incidentes com vazamento de sedimentos foram registrados em minas da Vale nas cidades vizinhas de Congonhas e Ouro Preto, reforçando o clima de insegurança no estado.
Enquanto a economia local tenta se desvincular da dependência da mineração, os processos judiciais criminais avançam lentamente. As audiências de instrução para apurar responsabilidades pelas mortes de 2019 devem se intensificar apenas neste ano. Até o momento, a reparação socioambiental da bacia do Paraopeba é estimada em menos de 40% de conclusão, mantendo Brumadinho em um cenário de incerteza quanto ao seu futuro hídrico e social.
