Verbas das tragédias de Mariana e Brumadinho são transformadas em palanque eleitoral de Zema
Recursos de acordos com mineradoras financiam pacote de obras utilizado para promover imagem do ex-governador

Luciano Meira
O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), concentra sua estratégia de mobilização eleitoral na entrega de obras financiadas com recursos dos acordos de reparação das tragédias de Mariana e Brumadinho. Juntas, as duas tragédias deixaram 291 mortos e um rastro de destruição ambiental no estado. O uso dessas verbas para intervenções de alta visibilidade pública, como asfálticas e hospitalares, tem sido o pilar das agendas políticas do ex-gestor pelo estado. A prática levanta questionamentos éticos sobre a conversão de indenizações por perdas humanas e ambientais em capital político.
Os montantes originam-se de termos de ajuste de conduta firmados com as mineradoras Vale e Samarco. Em 2021, o governo estadual selou um acordo de R$ 37,68 bilhões com a Vale para reparar os danos causados pelo rompimento em Brumadinho. Uma parcela significativa desse valor foi direcionada para projetos estruturantes, o que permitiu ao governo realizar investimentos em regiões que não sofreram impactos diretos dos rejeitos, ampliando o alcance da propaganda governamental.
A utilização desses fundos permitiu que Zema tenha percorrido o interior de Minas Gerais inaugurando trechos de rodovias e reformas em unidades de saúde. Em suas redes sociais e eventos públicos, as obras são apresentadas como conquistas da gestão, muitas vezes sem a devida contextualização sobre a origem fúnebre do recurso. Para especialistas em administração pública, a desvinculação entre a tragédia e o benefício gerado facilita a construção de uma narrativa de eficiência administrativa.
Parlamentares de oposição na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) criticam o que chamam de “espetacularização da tragédia”. O argumento central é que o governo prioriza o impacto visual das obras — que rendem fotos e vídeos para campanhas — em vez de acelerar indenizações individuais e recuperações ambientais complexas. O Ministério Público acompanha os repasses, mas a discricionariedade do Executivo sobre onde aplicar parte da verba permite o uso político observado.
O governo, por sua vez, afirma que a aplicação dos recursos segue critérios técnicos e visa o desenvolvimento global do estado. A defesa da gestão Zema sustenta que transformar o dinheiro da reparação em infraestrutura é a forma mais eficaz de deixar um legado duradouro para a população mineira. No entanto, a onipresença da logomarca do governo e a exaltação do ex-governador nessas entregas reforçam a percepção de uso do palanque.
A análise do cenário eleitoral indica que o ex-governador utilizou o volume recorde de investimentos para se consolidar como um gestor realizador. Ao vincular sua imagem a grandes canteiros de obras, Zema tenta mitigar críticas sobre o endividamento do estado e o regime de recuperação fiscal. A origem do dinheiro, no entanto, permanece como um ponto sensível, gerando desconforto entre familiares das vítimas que ainda aguardam conclusões judiciais.
A utilização de fundos compensatórios de catástrofes para impulsionar candidaturas cria um precedente sobre como governos podem se beneficiar financeiramente de tragédias sob sua jurisdição. O desdobramento dessa estratégia será testado na aceitação do eleitorado diante da associação entre asfalto e perdas humanas.
Socialmente, a estratégia de Zema provoca uma divisão entre o benefício coletivo da infraestrutura e o respeito à memória das vítimas. Politicamente, o uso das verbas de Mariana e Brumadinho redefine os limites da propaganda institucional, transformando recursos de dor em ativos de marketing. O legado final dessa gestão será avaliado pela capacidade da sociedade de distinguir entre investimento público legítimo e aproveitamento político de calamidades.
