Zema celebra bombardeio dos EUA na Venezuela e ignora lições da democracia brasileira
Governador mineiro, que não sabia quem era Adélia Prado até pouco tempo, opina sobre geopolítica como se bombas resolvessem crises políticas

Luciano Meira
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), comemorou neste sábado (3) a operação militar dos Estados Unidos que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro, desejando que o episódio permita ao povo daquele país “reencontrar paz, estabilidade e o caminho do desenvolvimento”. Em postagem nas redes sociais, Zema criticou o “chavismo” como responsável por isolar a Venezuela, destruir sua economia e expulsar milhões de cidadãos, mas silenciou sobre o custo humano dos bombardeios ordenados por Donald Trump, que não distinguem ideologia ou inocentes quando explodem. A fala vai na contramão da condenação veemente do governo federal e expõe o oportunismo de um político que, até recentemente, confessou desconhecer Adélia Prado, uma das maiores escritoras mineiras, mas agora se arvora em autoridade sobre a complexa geopolítica latino-americana.
A gafe cultural de Zema e a presunção geopolítica
Até 2023, Romeu Zema protagonizou uma cena constrangedora ao perguntar, em entrevista, “quem é Adélia Prado?”, obrigando o interlocutor presente a explicar que se tratava da poeta premiada de Divinópolis, um ícone da cultura mineira contemporânea. Essa lacuna cultural não impediu que, três anos depois, o governador se pronunciasse com desenvoltura sobre a Venezuela, como se intervenções armadas resolvessem ditaduras sem gerar caos humanitário ou violações ao direito internacional. Zema, pré-candidato à Presidência da República, soma-se a governadores como Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado em celebração à ação dos EUA, ignorando que bombas caem sobre civis, infraestruturas e futuros, independentemente de alinhamentos ideológicos.
A pressa em opinar sobre assuntos alheios ao Palácio da Liberdade revela mais ambição eleitoral do que responsabilidade governamental, especialmente quando Minas Gerais enfrenta déficits crônicos em saúde, educação e segurança, problemas que demandam foco local em vez de bravatas internacionais.
Bombas não elegem democracias
Zema invoca “liberdade, responsabilidade, democracia” para a Venezuela, mas omite que a verdadeira transição democrática não se constrói com mísseis, mas com instituições fortes, eleições livres e responsabilidade judicial, como ocorreu no Brasil após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Aqui, os responsáveis pela tentativa de impor uma ditadura por meio de invasão ao Congresso, STF e Planalto foram identificados, julgados e presos pela Justiça, sem necessidade de bombardeios estrangeiros ou execuções sumárias. Na Venezuela, a captura de Maduro por forças dos EUA levanta questões sobre soberania e legalidade, com o Conselho de Segurança da ONU convocado para debater o precedente perigoso de intervenções unilaterais.
Celebrar ataques aéreos como salvação ignora o rastro de destruição em infraestruturas civis e o risco de vácuo de poder que alimenta mais instabilidade, como visto em intervenções passadas no Iraque ou Líbia. Bombas matam indiscriminadamente e não constroem nações; elas apenas mudam vítimas e perpetuam ciclos de violência.
Contradição com a posição nacional e regional
Enquanto o presidente Lula condena os ataques como “afronta à soberania” e o Itamaraty reitera defesa do multilateralismo na ONU e na Celac, Zema alinha-se a vozes da extrema-direita brasileira, como Eduardo Bolsonaro e Sergio Moro, que veem na operação um modelo para “outros governos de esquerda”. Essa dissidência interna enfraquece a voz do Brasil na diplomacia latino-americana e expõe o governador mineiro como outsider em temas que exigem nuance, não simplismos ideológicos, levando a questão: seria ele apenas um caipira mal informado ou um canalha mal intencionado?
Venezuelanos exilados comemoraram nas ruas a captura de Maduro, mas relatos iniciais apontam para temores de retaliações e colapso econômico agravado pela ofensiva, o que questiona se a “paz” prometida por Zema virá sem um plano concreto de reconstrução. Para um gestor que mal conhece sua própria cultura estadual, opinar sobre o destino de nações vizinhas soa como exibicionismo político, distante da seriedade que o cargo exige.
