Zema renuncia ao governo de Minas sob dívida bilionária e promessas não cumpridas

Luciano Meira
O governador Romeu Zema (Novo) renuncia ao cargo no próximo domingo (22) para viabilizar sua candidatura à Presidência da República. Ao deixar o Palácio Tiradentes, o empresário encerra um ciclo de sete anos entregando um Estado financeiramente mais fragilizado do que herdou, contrariando a retórica de “choque de gestão” que o elegeu em 2018. A saída, recebida com alívio por setores do funcionalismo e da oposição, é marcada pelo descumprimento de metas estruturais e por um passivo fiscal recorde.
A principal marca negativa da gestão Zema é a dívida de Minas Gerais com a União. Ao assumir o primeiro mandato, o débito estava na casa dos R$ 114 bilhões. Atualmente, o montante supera os R$ 175 bilhões, um crescimento maior que 50%. A estratégia de protelar o pagamento por meio de liminares no Supremo Tribunal Federal (STF), em vez de consolidar o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), empurrou o problema para as próximas décadas, comprometendo o orçamento de futuros governadores.
Renúncias fiscais e privilégios
Enquanto pregava austeridade para os serviços públicos, Zema acelerou a política de isenções fiscais para setores específicos. O volume de renúncia de receita saltou de R$ 15 bilhões anuais, no final de seu primeiro mandato, para uma estimativa que ultrapassa os R$ 23 bilhões em 2026. A opacidade sobre quais empresas foram beneficiadas e a falta de contrapartidas em geração de empregos geraram críticas contundentes no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Para o funcionalismo público, a gestão deixa um rastro de insatisfação. Zema encerra o governo sem solucionar o escalonamento salarial de diversas categorias e sem aplicar a recomposição inflacionária integral exigida por lei. As greves na educação e na segurança pública evidenciam o desgaste de um modelo que priorizou o equilíbrio contábil em detrimento da valorização do servidor.
O impasse da sucessão
A renúncia de Zema também coloca à prova seu capital político regional. Seu sucessor natural e futuro governador em exercício, Mateus Simões (PSD), enfrenta dificuldades para decolar. Simões aparece nas últimas colocações em todas as pesquisas de intenção de voto para o governo estadual, amargando índices que raramente ultrapassam os 5%.
O isolamento de Simões reflete a dificuldade em construir alianças sólidas para além do núcleo empresarial de Zema. Sem o “padrinho” no cargo e com uma máquina estadual engessada por dívidas, os grupos políticos em torno da máquina estatal devem iniciar o período eleitoral com o desafio de provar que o modelo de gestão mineiro é sutentável — uma tese que os números de Minas parecem contradizer.
