Zona da Mata mineira chora dezenas de mortos em chuvas recordes
Depois de ao menos 36 mortos e dezenas de desaparecidos em Juiz de Fora e Ubá, equipe de resgate intensifica operações enquanto a região enfrenta novo risco de chuvas intensas, deslizamentos e alagamentos

Luciano Meira
Chuvas recordes transformaram a Zona da Mata mineira em um cenário de luto e destruição, com pelo menos 36 mortos e cerca de 33 pessoas ainda desaparecidas entre Juiz de Fora e Ubá, segundo balanço atualizado do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais. Bairros foram soterrados por lama, rios transbordaram, casas desabaram e famílias perderam entes queridos em uma das maiores tragédias climáticas da história recente da região, enquanto brigadas de resgate trabalham em ritmo de emergência para localizar sobreviventes e mapear os desabrigados.
Estado de calamidade e deslocamento de vítimas
Em Juiz de Fora, o transbordamento do rio Paraibuna inundou ruas, avenidas e residências, levando o município a declarar estado de calamidade pública e suspender aulas para priorizar o socorro às vítimas. A prefeitura informou que centenas de pessoas deixaram suas casas, com estimativas em torno de 440 desabrigados, e criou centros de acolhimento provisório para quem perdeu tudo na enchente. Em Ubá, o prefeito José Damato (PSD) classificou o evento como “maior enchente da história” da cidade, com estragos que incluem casas soterradas, ruas intransitáveis e prejuízos em comércios e infraestrutura urbana.
O governo de Minas reconheceu o caráter de emergência e ampliou o emprego de tropas de segurança, engenharia e equipes de Defesa Civil, com cerca de 500 homens envolvidos em Juiz de Fora e municípios vizinhos. O Estado decretou luto oficial de três dias e acionou recursos de outras regiões para reforçar logística, transporte de vítimas e apoio psicossocial a famílias atingidas.
Ações do governo federal e ajuda humanitária
O governo federal reconheceu o estado de calamidade em Juiz de Fora e, por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, liberou verbas para auxílio emergencial às famílias desabrigadas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter tomado conhecimento da situação ainda no exterior e ofereceu o apoio do governo federal, enviando o ministro da Integração, Waldez Góes, à Zona da Mata para coordenar o fluxo de recursos e serviços de saúde.
O presidente em exercício, Geraldo Alckmin, anunciou o repasse de R$ 800 por pessoa desabrigada, com o valor repassado ao Ministério do Desenvolvimento Social e posteriormente às prefeituras de oito municípios afetados, que ficarão responsáveis por entregar o auxílio às famílias identificadas. Além disso, a União mobilizou equipes da Força Nacional e do Sistema Único de Saúde (SUS) para reforçar abrigos, fornecer kits de higiene e garantir atendimento médico a feridos e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Chuvas continuam e alerta de deslizamentos
Mesmo após o temporal que matou dezenas de pessoas, a Zona da Mata mineira segue sob forte risco de novas chuvas intensas, com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) emitindo alerta de “grande perigo” para Minas Gerais, incluso em bandeira vermelha para 365 cidades, entre elas Juiz de Fora e Ubá, com validade até o fim da semana. O instituto aponta possibilidade de volumes acima de 100 mm por dia em áreas da região, o que eleva o risco de alagamentos, transbordamentos de rios e deslizamentos de encostas, especialmente em áreas de drenagem deficiente e solo já saturado.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como “muito alta” a probabilidade de novos deslizamentos e enxurradas em Juiz de Fora, com cenário descrito como um dos mais críticos entre as regiões monitoradas no Sudeste. Segundo o órgão, pancadas de chuva de intensidade moderada a forte estão previstas para os próximos dias, o que pode gerar novas ocorrências de movimentos de massa, quedas de barreiras e inundações em bairros próximos a encostas e canais de drenagem.
Mensagem de cautela às comunidades
Diante dessa combinação de chuvas persistentes, solo encharcado e estrutura urbana sobrecarregada, as Defesas Civil estadual e municipais orientam a população a evitar a permanência em áreas de risco, como margens de rios, encostas e regiões recorrentemente afetadas por deslizamentos. As autoridades também reforçam a necessidade de manter bens essenciais em locais mais altos, manter canais de escoamento livres de entulho e seguir atentamente os avisos e orientações oficiais da prefeitura e das equipes de emergência. Para as famílias que já perderam casas, vizinhos ou parentes, a promessa é de continuidade do apoio humanitário, com perspectiva de análise de políticas de reassentamento e reforço de programas habitacionais após o término da fase de resgate imediato.
