Polícia Federal prende Henrique Vorcaro, doador da campanha de Romeu Zema
O ex-governador de Minas Gerais criticou Flávio Bolsonaro enquanto ocultava elos financeiros e benefícios concedidos ao clã Vorcaro

Luciano Meira
A Polícia Federal prendeu o empresário Henrique Vorcaro na manhã desta quinta-feira (14), em desdobramento da Operação Compliance Zero. A ordem, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), investiga crimes financeiros vinculados ao Banco Master, instituição liderada por seu filho, Daniel Vorcaro. Henrique é suspeito de atuar como beneficiário de depósitos ilícitos realizados pelo banqueiro no esquema de lavagem de dinheiro e fraude bancária.
O fato ganha relevância política após Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, publicar críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na última quarta-feira (13). Zema classificou como “imperdoável” o pedido de dinheiro de Flávio a Daniel Vorcaro, revelado pelo site The Intercept Brasil. No entanto, registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o próprio Zema recebeu R$ 1 milhão de Henrique Vorcaro em sua campanha de reeleição em 2022.
A gestão de Zema em Minas Gerais é marcada por decisões que favoreceram diretamente os negócios da família Vorcaro no setor de mineração. Durante seu mandato, a mineradora Itaminas, de propriedade do clã, obteve reduções drásticas em dívidas e multas ambientais, que caíram de R$ 500 milhões para aproximadamente R$ 100 milhões. Com a anuência do governo estadual, a empresa retomou operações em 2020, apesar do histórico de irregularidades e riscos ambientais.
O governo de Minas Gerais também enfrentou denúncias sobre a morosidade no tombamento da Serra do Curral. O atraso no processo de proteção ambiental beneficiou a mineradora Tamisa, controlada pelos Vorcaros e por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal conduz a Operação Rejeito para apurar possíveis fraudes em licenciamentos ambientais concedidos pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) a essas empresas durante a administração do Partido Novo.
As conexões financeiras entre Zema e os Vorcaros contradizem o discurso de ética e “gestão técnica” propagado pelo político. O ex-governador detém participação acionária na Zema Crédito, Financiamento e Investimento S.A., empresa que foi alvo de investigações na CPMI do INSS por irregularidades em empréstimos consignados. A financeira operou em nichos semelhantes aos do Banco Master, cujos proprietários agora enfrentam acusações de causar um rombo de R$ 41 bilhões no sistema financeiro nacional.
Especialistas em ética pública apontam que a postura de Zema reflete uma conveniência política ao tentar se desvincular do clã Bolsonaro enquanto mantém as mesmas práticas de financiamento. “O discurso da moralidade pública colide com a dependência de doadores investigados por crimes financeiros”, afirma o jurista e especialista em direito eleitoral, João Aquino. A prisão de Henrique Vorcaro fragiliza a tentativa de Zema de se apresentar como uma alternativa de “terceira via” isenta de vícios tradicionais.
O cenário revela que a proximidade com o capital do Banco Master e de mineradoras influenciou diretamente a política ambiental e fiscal mineira nos últimos anos. A prisão do patriarca da família Vorcaro e as investigações sobre lavagem de dinheiro para organizações criminosas elevam o risco jurídico sobre o financiamento de campanhas do Partido Novo em Minas Gerais. A repercussão dos fatos coloca em xeque a viabilidade da candidatura de Zema perante o eleitorado que busca rompimento com esquemas de corrupção.
