Zema usa fundo partidário após anos de críticas a dinheiro público
Candidato do Novo recebe R$ 1,75 milhão de verba pública enquanto seu programa de governo propõe extinguir fundos partidário e eleitoral

Luciano Meira
O candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) recebeu R$ 1,75 milhão do Fundo Partidário para financiar sua campanha, em uma mudança em relação ao discurso que marcou sua trajetória eleitoral. Segundo dados da prestação de contas registrados na Justiça Eleitoral, o Novo transferiu R$ 750 mil ao candidato em 10 de agosto e mais R$ 1 milhão em 14 de agosto. É a primeira eleição em que Zema supostamente utiliza diretamente recursos dessa origem.
O repasse ocorre cinco meses depois de Zema voltar a criticar publicamente o financiamento de partidos e campanhas com dinheiro público. Em março, ainda governador de Minas Gerais, ele afirmou considerar “um absurdo” o país gastar bilhões de reais por ano com os fundos Partidário e Eleitoral e associou a proposta de acabar com o modelo à independência de sua candidatura. Na mesma ocasião, declarou que os fundos favorecem a “perpetuação de candidatos já eleitos”.
A posição também aparece no programa apresentado por Zema para a eleição presidencial. O documento registrado pelo Novo propõe extinguir tanto o Fundo Partidário como o Fundo Especial de Financiamento de Campanha e substituí-los por financiamento privado, com doações de pessoas físicas e jurídicas submetidas a regras e limites. Até agora, os R$ 1,75 milhão registrados na conta do candidato têm origem no Fundo Partidário. O uso do Fundo Eleitoral, do qual o Novo prevê destinar cerca de R$ 5 milhões à candidatura presidencial, ainda não aparecia na prestação de contas consultada após os primeiros repasses.
A mudança, porém, começou antes da atual campanha. Em 2018, quando disputava pela primeira vez o governo mineiro, Zema classificava o Fundo Partidário como um mecanismo “perverso” e dizia que utilizá-lo era “um erro”. Em 2023, já no segundo mandato, passou a defender que o Novo flexibilizasse a proibição. Argumentou que disputar eleições sem recursos públicos, após a proibição de doações empresariais, seria como entrar em uma guerra “sem pólvora”. Em maio deste ano, confirmou que sua campanha presidencial usaria dinheiro público para evitar uma disputa que classificou como desigual.
A alteração contrasta também com a imagem política construída por Zema desde 2018. Empresário antes de ingressar em cargos eletivos, ele voltou a se apresentar em março deste ano como um candidato “outsider” e afirmou não ter carreira política. Em outubro de 2018, durante sua primeira campanha ao governo, publicou vídeo em que destacava que o Fundo Partidário era abastecido por impostos e usava a rejeição ao recurso público como diferença em relação aos adversários.
Outro episódio envolvendo financiamento político voltou ao debate neste ano com as investigações sobre o Banco Master. Os registros do TSE mostram que Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, doou R$ 1 milhão ao diretório estadual do Novo em Minas Gerais, em 2022, quando Zema concorria à reeleição. Não há, nos registros apresentados comprovação de que a contribuição tenha sido feita diretamente à campanha de Zema, mas o dinheiro foi usado pelo diretório estadual do partido para custear despesas de campanha. Henrique foi o sexto maior financiador do diretório mineiro naquele pleito, no qual o partido arrecadou R$ 28,6 milhões.
Zema afirma que “nenhum centavo” daquela doação foi destinado à sua campanha e diz que a transferência foi legal, declarada à Justiça Eleitoral e realizada antes do início das investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master. Em julho, afirmou que não houve favorecimento à família Vorcaro e disse que o empresário fez a contribuição porque acreditava no projeto do partido, apesar do avanço das investigações sobre as fraudes do Banco Mater mostrarem que os Vorcaro tinham muitos interesses em atividades, cuja fiscalização e intervenção do governo estadual, eram importantes. O Novo também sustenta que a doação foi regularmente registrada e que sua atuação política não é condicionada aos interesses de financiadores.
A relação voltou ao centro da disputa depois que Zema atacou Flávio Bolsonaro (PL) por negociações de recursos com Daniel Vorcaro. Em maio, após a divulgação de áudios sobre pedidos de dinheiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, Zema classificou a conduta como “imperdoável” e disse que políticos não poderiam criticar práticas de adversários e depois “fazer a mesma coisa”. No dia seguinte, adversários recuperaram o registro da doação de Henrique Vorcaro ao Novo de Minas.
Daniel Vorcaro permanece alvo das investigações relacionadas ao Banco Master e voltou a ser preso em março de 2026; Henrique Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em maio no mesmo conjunto de apurações, e decisões posteriores mantiveram sua prisão preventiva. As investigações e prisões não tornam irregular, por si só, a doação eleitoral realizada em 2022. No caso de Zema, o contraste documentado está entre o discurso de rejeição ao financiamento público e a decisão de utilizá-lo na disputa presidencial, além da diferença entre a cobrança pública de distância de interesses privados e a presença de uma doação da família Vorcaro entre as receitas do partido que comandava sua campanha estadual em 2022.