Aro perde aliados e vê candidatura ao Senado sob pressão
Ex-secretário de Zema rompeu com Mateus Simões, ensaiou candidatura ao governo e agora enfrenta distanciamento de Cleitinho, além de questionamentos sobre patrimônio e pessoas de seu entorno político

Luciano Meira
Marcelo Aro (PP) iniciou 2026 em posição que indicava uma segunda disputa pelo Senado em condições mais favoráveis do que as encontradas quatro anos antes. Ex-deputado federal e ex-secretário dos governos Romeu Zema (Novo), Aro construiu uma rede de prefeitos, vereadores e parlamentares identificada no meio político como “Família Aro” e ocupou postos estratégicos na articulação do Executivo. A campanha, porém, chegou a agosto em cenário diferente: Aro rompeu com o governador Mateus Simões (PSD), tentou viabilizar candidatura própria ao Palácio Tiradentes e agora enfrenta o distanciamento do grupo de Cleitinho Azevedo (Republicanos), a quem havia se aproximado depois de deixar o campo governista.
A ruptura com Simões começou a ganhar forma depois que o PSD incorporou o senador Carlos Viana (PSD), candidato à reeleição, ao projeto eleitoral do governador. Aro reivindicava uma das duas vagas ao Senado na chapa e recusou dividir espaço com Viana. Em 30 de julho, comunicou a Simões que articulava a própria candidatura ao governo e formalizou o rompimento com o grupo político do qual participava desde a gestão Zema. A separação também retirou aliados de Aro de espaços no governo e encerrou uma relação que havia ajudado o ex-secretário a estruturar sua atuação entre prefeitos e lideranças municipais.
A tentativa de disputar o governo ocorreu em meio às indefinições sobre a candidatura de Cleitinho. Quando o senador chegou a anunciar que não concorreria ao Palácio Tiradentes, Aro apareceu como alternativa para setores da direita. A movimentação não prosperou, Cleitinho retomou a candidatura e Aro voltou ao projeto do Senado. O senador anunciou apoio a ele em 7 de agosto, mas a aproximação durou pouco. Onze dias depois, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), candidato a vice e coordenador da campanha de Cleitinho, anunciou “distanciamento e independência” entre as duas campanhas. Falcão negou um rompimento formal sob o argumento de que Aro nunca integrou oficialmente a coligação do Republicanos.
O afastamento expôs conflitos anteriores entre Aro e integrantes do grupo que cerca Cleitinho, como disputas políticas, desentendimentos pessoais e resistência de familiares e aliados do candidato ao governo à associação com Aro. Em 18 de agosto, Cleitinho retirou o apoio ao candidato do PP e enumerou oito fatores para explicar o desgaste. A mudança colocou Aro em uma situação incomum: depois de perder o palanque de Simões, também deixou de contar com a aproximação explícita de Cleitinho para impulsionar sua candidatura ao Senado.
O distanciamento também ocorre quando questionamentos sobre pessoas próximas a Aro passaram a aparecer no debate eleitoral, a exemplo de Rubens Soalheiro, amigo do ex-secretário e ex-dirigente da Cemig SIM, al[em de empresas e negócios no setor de energia que também envolvem integrantes do universo empresarial de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Aro afirmou que não indicou Soalheiro para a companhia, nunca interferiu nas decisões da Cemig e classificou as associações como “ilações totalmente descabidas”. Aro não é apontado como investigado no escândalo do Banco Master.
O tema chegou ao debate dos candidatos ao governo promovido pela Band Minas em 16 de agosto. Gabriel Azevedo (MDB) mencionou as reportagens sobre a Cemig SIM ao questionar Cleitinho sobre suas alianças e, sem pronunciar o nome de Aro, afirmou haver um político mineiro cujo sobrenome “rima com Vorcaro”. Gabriel aconselhou Cleitinho a tomar cuidado com as pessoas de quem se aproxima. Dois dias depois, Falcão procurou separar a candidatura do Republicanos das suspeitas levantadas contra terceiros e afirmou que eventuais irregularidades praticadas por integrantes ou ex-integrantes do governo estadual deveriam ser respondidas pelos responsáveis.
Outro questionamento surgiu sobre o patrimônio declarado pelo candidato. Aro informou à Justiça Eleitoral possuir cerca de R$ 10 milhões em bens, mas levantamento da imprensa apontou que as cotas de capital de sociedades sob seu controle ultrapassariam R$ 40 milhões. A diferença, isoladamente, não comprova ocultação patrimonial, porque o valor declarado de uma participação societária e o capital ou patrimônio de uma empresa podem obedecer a critérios distintos. A reportagem levantou, contudo, dúvidas sobre a declaração entregue ao TSE e sobre participações empresariais relacionadas ao setor de energia, acrescentando um novo tema à campanha do candidato.
A sequência representa uma mudança para um político que chegou ao ano eleitoral apoiado em uma estrutura construída ao longo de anos. Aro comandou áreas centrais do governo Zema e consolidou um grupo de correligionários, parlamentares, vereadores e aliados que passou a ser chamado de “Família Aro”. A estrutura permitiu ampliar sua interlocução com prefeitos e lideranças municipais, ativos considerados relevantes em uma eleição majoritária. O rompimento com Simões, porém, retirou da campanha a proximidade com o governo estadual que havia acompanhado a formação dessa rede. A questão eleitoral agora é saber quanto da chamada “Família Aro” permanece coesa e capaz de transferir votos sem as portas do Executivo estadual que estiveram abertas ao grupo nos últimos anos.
A dificuldade ganha peso diante do resultado de 2022. Na primeira tentativa de chegar ao Senado, Aro disputou com apoio de Zema e terminou em terceiro lugar, com cerca de 2 milhões de votos e 19,7% dos válidos. Cleitinho venceu aquela eleição, com 41,5%. Quatro anos depois, Aro retorna com uma estrutura política maior, mas percorreu caminho inverso ao planejado: perdeu o apoio do sucessor político de Zema, tentou tornar-se candidato ao governo, retornou à disputa pelo Senado e buscou justamente em Cleitinho, seu algoz eleitoral de 2022, um novo ponto de sustentação. Agora, a campanha de Cleitinho procura manter distância.
Aro continua candidato, mantém aliados e dispõe da rede política construída nos últimos anos. O cenário, entretanto, já não corresponde ao que parecia desenhado no início de 2026. A candidatura que poderia avançar amparada pelo governo estadual passou a disputar espaço entre diferentes projetos da direita mineira, alguns deles comandados por antigos aliados. Para o líder da chamada “Família Aro”, a eleição também se transforma em teste sobre a capacidade de o grupo sobreviver eleitoralmente fora da estrutura que ajudou a consolidá-lo. Depois da derrota de 2022, Aro chega à reta decisiva de sua segunda campanha ao Senado diante de resistências que tornam incerto um caminho que, meses atrás, parecia mais aberto.