Acordo entre Mercosul e União Europeia entra em vigor nesta sexta-feira
Tratado histórico integra mercados de 31 países e facilita exportações de 5 mil produtos brasileiros com alíquota zero imediata

Luciano Meira
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia entra em vigor nesta sexta-feira (1º), marcando o início de uma nova era para a economia brasileira. Após 26 anos de negociações diplomáticas, o tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, conectando 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de aproximadamente US$ 22,4 trilhões. A implementação ocorre de forma provisória por meio do Acordo Comercial Temporário (iTA), permitindo que os benefícios tarifários fluam enquanto os Estados-membros europeus concluem o processo de ratificação política.
Nesta fase inicial, a União Europeia elimina imediatamente as tarifas de importação para mais de 5 mil produtos originários do Mercosul. Cerca de 93% desses itens são bens industriais, como máquinas e equipamentos, além de produtos químicos e têxteis. No setor agrícola, o Brasil terá acesso facilitado para café, frutas e óleos, que passam a entrar no mercado europeu sem impostos desde o primeiro dia de vigência. O tratado deve elevar o acesso do Brasil ao mercado global de importações de atuais 8% para mais de 37%.
O caminho para a consolidação deste pacto remete ao primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, quando o Brasil liderou o G-20 comercial e intensificou a integração sul-americana. Lula defendeu, desde aquela época, que o acordo não deveria apenas favorecer a exportação de commodities, mas permitir que o Brasil vendesse bens industriais com maior valor agregado. Durante as últimas duas décadas, o protagonismo diplomático brasileiro foi central para superar barreiras ambientais e pressões protecionistas de setores agrícolas europeus, especialmente na França.
Os antecedentes do tratado envolvem ciclos de diálogos interrompidos e retomadas estratégicas. O texto final foi consolidado em 2024 e ratificado pelo Senado brasileiro em março de 2026, após a União Europeia sinalizar a urgência de parcerias estratégicas diante de incertezas geopolíticas globais. A estratégia de dividir o documento original em dois — um comercial e outro de parceria política — foi o mecanismo técnico que viabilizou a entrada em vigor comercial imediata.
As repercussões imediatas já mobilizam setores produtivos nacionais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o acordo traga mais previsibilidade e competitividade às empresas brasileiras frente a concorrentes asiáticos e norte-americanos. Por outro lado, o governo brasileiro adotou uma postura de desoneração gradual para importações europeias, estendendo o prazo de transição por até 15 anos em setores sensíveis, como vinhos e derivados de leite, para permitir a adaptação da indústria local.
O desdobramento econômico do acordo projeta um incremento de até US$ 1 bilhão nas exportações brasileiras para o bloco europeu apenas nos primeiros 12 meses. Além da zeragem tarifária, o tratado estabelece regras claras para compras governamentais, padrões técnicos e propriedade intelectual. Em contrapartida, produtos europeus como carros de luxo e queijos deverão ter reduções graduais de preço para o consumidor brasileiro ao longo da próxima década.
O impacto político deste acordo reforça o multilateralismo brasileiro e posiciona o país como um parceiro confiável em sustentabilidade e segurança alimentar. Socialmente, a integração deve dinamizar fluxos de investimentos estrangeiros diretos, gerando empregos em cadeias produtivas de tecnologia e inovação. Economicamente, a redução de custos de insumos industriais importados pode modernizar o parque fabril nacional, mitigando a dependência histórica de processos de substituição de importações.
