Brasil amplia exportação de carne bovina e mira Indonésia após tarifaço dos EUA
Saída de mercado americano é compensada por acordo estratégico com o quarto país mais populoso do mundo; altas nos preços acompanham redução da oferta nos Estados Unidos

Luciano Meira
O Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, celebra uma importante vitória comercial ao conquistar a abertura do mercado da Indonésia para cortes com osso, miúdos, produtos cárneos e preparados de carne. A medida foi anunciada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária nesta terça-feira (19) e surge em meio ao impacto negativo causado pela imposição de tarifas recordes sobre a carne brasileira pelos Estados Unidos, até então o segundo maior importador da proteína nacional.A Indonésia, com seus 283 milhões de habitantes e crescente classe média, é vista como um destino estratégico para diversificar a pauta exportadora brasileira. O acordo firmado entre os governos dos dois países estipula requisitos sanitários para viabilizar a entrada dos produtos, e reforça uma parceria já robusta: em 2024, o país asiático importou US$4,2 bilhões do agronegócio brasileiro, principalmente dos setores sucroalcooleiro, soja, fibras e têxteis. Agora, a carne bovina entra no rol de produtos exportados e consolida o total de 402 aberturas de mercado promovidas pelo agro do Brasil desde o início de 2023.
Tarifaço dos EUA derruba vendas e pressiona preços locais
O avanço na Ásia ocorre como reação à decisão do governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, de elevar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros como carne bovina, café e pescados. O impacto foi imediato: de abril a julho, as exportações brasileiras aos EUA caíram 80%, de 47,8 mil para 9,7 mil toneladas, segundo dados do setor. Embora alguns frigoríficos brasileiros possuam operações em outros países e atenuem o impacto do tarifaço em seus balanços, a medida trouxe desafios inéditos para parte da indústria nacional, levando empresas a buscarem mercados substitutos como a Indonésia.
Nos Estados Unidos, a restrição à carne brasileira intensificou a crise de abastecimento e elevou os preços do quilo da carne a níveis recordes, ultrapassando R$130 em alguns estados. A oferta ficou ainda mais escassa devido à recomposição lenta do rebanho local, processo que pode levar anos. Redes de fast food e supermercados já sentem a pressão, recorrendo a fornecedores alternativos, como Austrália, Argentina e Uruguai, a custos significativamente maiores do que os cobrados pelo Brasil antes da tarifa.
Analistas apontam para uma tendência de alta nos próximos anos, tanto nos EUA quanto em outros mercados, até que a oferta global se equilibre novamente.
Brasil reforça protagonismo global mesmo em cenário adverso
A negociação bem-sucedida com a Indonésia mostra a capacidade de adaptação do setor agropecuário brasileiro diante de barreiras comerciais — em especial quando se considera a perda de espaço em grandes mercados tradicionais. Ao expandir destinos e incluir a carne bovina em acordos sanitários rigorosos, o país mantém elevada sua competitividade no cenário internacional, reforçando sua posição como principal fornecedor global de proteína animal.
No curto prazo, a expectativa é de que o novo acordo compense parte das perdas com as vendas aos EUA e represente uma alternativa sólida para o agronegócio brasileiro, favorecido tanto pelo dinamismo da economia asiática quanto pela crescente demanda de consumo de proteína animal entre os indonésios.