Do Forte de Copacabana ao Motim Parlamentar

Uma antiga ameaça à democracia brasileira persiste: a rearticulação reacionária, ora nas ruas, ora dentro do Parlamento

Arte criada por IA – RMC
Luciano Meira

Na semana em que o Congresso Nacional foi palco de um motim liderado por deputados e senadores da autoproclamada direita conservadora, o Brasil precisa voltar os olhos para sua tradição golpista. O episódio escancarou mais uma tentativa de ruptura institucional promovida, dessa vez, de dentro para fora — uma inversão da dinâmica vivida em 8 de janeiro de 2023, quando grupos bolsonaristas tomaram as sedes dos Três Poderes em busca de um golpe vindo das ruas para as instituições.

A história brasileira é marcada por esforços de grupos — civis ou militares — que, incapazes de aceitar uma sociedade menos desigual, recorreram à ruptura democrática. Ao longo de mais de um século, os militares mantiveram papel central nessas tentativas. Da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922 à deposição de Getúlio Vargas em 1945, passando pelo golpe de 1964, sempre houve suporte de parcelas da elite e de setores reacionários, mostrando que parte da população nunca admitiu mudanças em direção a maior justiça social.

De Dutra a Bolsonaro: golpes tolerados e anistias que mantêm a ameaça viva

Em 1945, o então ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, foi considerado por Vargas “convertido num golpista” — posição que revela o DNA de um Exército alinhado ao conservadorismo e à ação política quando frustrado em seus interesses. A década de 1920 apontou o início de desestabilizações militares relevantes, com Dutra apoiando, anos depois, a deposição de Vargas.

De lá para cá, outros episódios marcaram a democracia: o Estado Novo (1937), o Golpe de 1964 e a repressão brutal imposta pela ditadura. Todos tiveram como pano de fundo o reagrupamento militar, incentivado por reiteradas anistias — como a de 1979 — que permitiram o retorno, sem punição, de protagonistas golpistas para novas articulações dentro da política nacional. O resultado? Um ciclo vicioso, com militares e setores reacionários prontos para desafiar o regime democrático sempre que suas demandas não são atendidas.

O 8 de janeiro e o motim parlamentar: faces de uma mesma moeda

O ataque de 8 de janeiro de 2023 foi emblemático: veio de fora, alimentado por radicais insuflados por ex-integrantes do governo Bolsonaro, que tentaram impingir sua vontade à força, destruindo patrimônio público e buscando empurrar os militares para uma “salvação nacional”. Cerca de 20 policiais militares eram tudo o que separava a multidão do Congresso naquele domingo simbólico para o autoritarismo brasileiro.

Já o motim desta semana dentro do Congresso expôs a inversão do roteiro: bolsonaristas e seus aliados ocuparam as cadeiras da Mesa Diretora, bloquearam votações e tentaram forçar a anistia para acusados de golpismo, impeachment de ministros do Supremo e o retorno de privilégios escusos. O movimento, embora escudado pelo discurso da “obstrução legítima”, extrapolou limites constitucionais, chocando juristas e reacendendo o debate sobre a resiliência da democracia nacional.

Não há democracia estável sem responsabilização

O paralelo entre os dois episódios — um vindo das ruas para o coração do Estado, outro partindo do alto escalão para desacreditar a própria democracia — revela que não bastam anistias e concessões. O Brasil precisa enfrentar seu passado autoritário e responsabilizar os que atentam contra o pacto democrático. Sem isso, os militares e seus aliados civis seguirão prontos a rearticular novas tentativas, seja nas casernas, seja sob as luzes do Congresso Nacional.

Enquanto as lições de 8 de janeiro e do motim parlamentar não forem plenamente assimiladas, permanece a ameaça latente à democracia — sempre de prontidão, sempre à espreita, movida pelo desejo de restaurar privilégios e perpetuar a desigualdade.

Luciano Meira

Editor do portal O Metropolitano
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